Sobre tesão e religião

A esfera homoafetiva cinematográfica ganha maior força, é perceptível que há uma intimidade melhor com as tramas, sem a superficialidade tão habitual em trabalhos que preferiam exteriorizar uma percepção caricata. Felizmente, inúmeros filmes de cunho gay vem tendo maior reconhecimento também — não só, bom destacar, pelas comunidades afins. Pecado da Carne é um belo exemplo de trabalho refinado, talvez um dos filmes mais provocativos já que traz nele reflexões bem condizentes com a atualidade; aqui nesse caso há o conflito da relação da homossexualidade com a religião, preceitos bastante latentes no que diz respeito às divergências de opiniões. Lançado no Brasil com o selo Filmes do Mix, nascido do Festival GLS Mix Brasil, a fita foi bem divulgada em salas de artes. O singelo filme israelense dirigido com minúcia por Haim Tabakman retrata o envolvimento de dois homens de uma comunidade judaica tradicionalista e ultraortodoxa na cidade de Jerusalém. Aaron Fleishman (Zohar Strauss), é o pai de uma família de 4 filhos resultado de um casamento encomendado. Após a morte do pai, passa a comandar o açougue herdado. É quando seu destino já demonstra a catarse: com a chegada do jovem Ezri (Ran Danker), que sem trabalho e lugar para viver se dispõe a trabalhar com ele, é que o filme atinge seu nível de comprometimento, o anúncio de todo o conflito. Como controlar os ímpetos carnais? Aaron passa a ser perseguido pelos companheiros da sinagoga que veem a aproximação dele com o Ezri como algo pecaminoso, a tal dita "sedução do mal". O que parecia um mundo pacífico, sem agitações, ganha forma com o gradual desejo que Aaron sente pelo novo amigo.

O filme é extremamente maduro em não ter pressa, prefere respirar as motivações dos personagens com um ritmo mais lento, porém atento às reações de cada um. Não é que seja tedioso, mas respeita os momentos dos seus personagens. A crescente intimidade de Aaron com Ezri ganha traços mais conturbados quando compreendemos que há dificuldades para eles viverem o que sentem. Não é só a barreira da homossexualidade que vem à tona, mas princípios da religião e discussões da cultura judaica. O roteiro de Merav Doster percorre as aflições desses dois indivíduos que não conseguem mais permanecer em recusas. A sinceridade do roteiro trata com dignidade a relação dos dois, sem que haja a forte tendência ao melodrama. Uma cena bonita e que mostra bem o sentido do filme é quando Aaron é confrontado pelo rabino, declarando que se sentia morto antes de conhecer Ezri.

Além da elegância com que trata este delicado tema, há uma leve sensualidade externada nas cenas onde há o tom do desejo, quando a paixão dos dois já não consegue se retrair. Mas, a provocação é evidente quando trata de questões mais extremas, como no perigoso caso tórrido dos dois que parece condenar a família de Aaron em punições. Há ainda discussões sobre homofobia, já que Ezri é alvo de comentários na comunidade que o discrimina abruptamente. Inúmeras discussões sobre as crenças de cada um são postas à mesa com rigor — deve-se abdicar de uma religião pelo desejo? O que faz uma paixão entre dois do mesmo sexo ser reconhecida como um pecado perante a religião? Por que se privar tanto de algo que acaba por ser uma felicidade duradoura? Perguntas estas são acometidas enquanto vivencia-se os conflitos de Aaron, um indivíduo preso em suas tradições religiosas sem conseguir se rebelar perante uma vida de anseios por seu objeto de tesão.

O público provavelmente sente-se aflito nas cenas onde os amantes passam dias trancafiados no quarto do açougue entregues ao tal "pecado da carne" do título brasileiro, no desespero de serem descobertos, mas ansiosos por aproveitarem cada segundo de prazer. Levantando tabus sem que consiga ferir a comunidade judaica, já que há sensos bastantes polêmicos neste filme, o diretor é sensato em conduzir a relação de desejo e amor dos dois protagonistas com um olhar bem humano. Sua câmera parece estagnada, prefere deixar que os atores em cenas se movimentem dando um ar mais naturalizado, realismo puro.

A química de Danker com Shtrauss é bem delineada, decerto foi uma bela escolha esses dois atores — interessante que o primeiro passa uma imagem mais sexual de seu personagem, de acordo com a personalidade mais passional dele; e o outro é mais introspectivo, fechado, de atos tolhidos e falas pequenas, já que é um homem vencido pela vida que nunca quis para si, tendo que retrair-se sexualmente. A direção intercala momentos silenciosos e outros de olhares apoiados de diálogos que extravasam a intensidade do tema em questão, um belo trabalho que mexe mesmo após o término da projeção. Uma pequena obra de grande proporção reflexiva, sem dúvida.

Einaym Pkuhot (Israel/ Alemanha/França, 2009)
Direção de Haim Tabakman
Roteiro de Merav Doster
Com Zohar Shtrauss, Ran Danker, Tinkerbell, Tzahi Grad, Isaac Sharry

17 opinaram | apimente também!:

Alan Raspante disse...

Já havia lido algo e já até achei para locação, mas ainda não vi.

Quero ver ainda este mês!

Abs e Feliz 2012 :)

Gabriel Neves disse...

Parece ser um bom filme, tô com ele aqui - por sua indicação - mas ainda não assisti. Agora que eu tenho mais tempo fica mais fácil.
Abração, e espero pra ver sua crítica de Um Dia.

Kamila disse...

Mais um filme que eu não conhecia. Mais um ótimo texto. Mais uma dica anotada. :)

red_eye disse...

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Luís disse...

Antes do seu texto - e ainda agora depois dele -, tenho um certo afastamento por esse filme. Já li boas resenhas, como a sua, e textos bastante enfáticos que dizem tratar-se esse de um bom filme.

Pelo que você escreveu, deve ser uma obra imperdível: o fato de discorrer a respeito dessa relação lentamente e permitir que tudo aconteça no seu tempo é realmente um bom aspecto, que merece ser destacado, principalmente porque a maioria dos filmes se furta dessa qualidade.

Um bom texto que, se não me convenceu, pelo menos fez com que eu tivesse um pouco mais de vontade para vê-lo.

J. BRUNO disse...

Acho que já lhe disse que gosto muito do cinema do oriente médio pela sensibilidade que emana deles... acho belo perceber que mesmo em culturas tão diferentes existem manifestação, que talvez sejam universais, de sentimentos como o amor, a esperança e o altruísmo... ainda não vi este, nem nunca tinha ouvido falar sobre ele, à primeira vista a trama não me chamou atenção, mas confio no teu faro para bons filmes e pode estar certo de que se eu tiver uma oportunidade de vê-lo farei de tudo para não perder... Abraços!

Amaury Oliveira disse...

É, parece interessante pra caramba no sentido de carregar a conflituosidade da homossexualidade para o seio da questão religiosa. O texto super me convenceu a querer assistir, e sei lá, de certa forma não espero ver algo parcial.

Amaury Oliveira disse...

É, parece interessante pra caramba levar o cenario conflituoso do digladio homossexual para o seio da divergencia religiosa, e seu texto super interessou a assistir. Só espero não encontrar, sei lá, algo muito tendensioso ou parcial.

Mirella disse...

Eu também já tinha ouvido falar, engraçado é que a proposta é um tanto quanto polêmica né? Ainda mais envolvendo um pouco da cultura Israelense, o que deve atiçar mais o interesse do público. Fiquei interessada também, belo texto Cris. Bjos

Ccine disse...

Tentei assistir quando estava em cartaz em São Paulo, mas sai muito rápido de cartaz.
Já havia achado a premissa interessante seu texto só confirma isso.
Vou tentar assisto.

Edilson Cravo disse...

Oiee:

Tá lindo o layout do blog.
Não vi este filme ainda (fiquei curioso...rs).
Obs: Aparece no Lua.
Abraços.

Flávio Junio disse...

Já tinha ouvido falar deste filme, interessante. Parabéns pelo ótimo texto Cris.

Luiz Santiago disse...

Parabéns pelo texto, rapaz. Vi o filme num Especial Cinema Judaico aqui em São Paulo, e só muito depois fiquei sabendo que o Mix também fez um lançamento paralelo. Como judeu, devo dizer que o filme escandaliza sim a questão da sexualidade tida na Torá - muito mais contundente em relação à homossexualidade do que a Bíblia cristã - independente do ortodoxismo ou não. O film eé maravilhoso e traz questões necessárias para a discussão do que é a sexualidade no mundo judaico atual, mas de forma geral, é um filme sobre as habituais feridas causadas pelo amor na inversão (Freud).

Na Boca do Sapo disse...

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Tania regina Contreiras disse...

Faz um tempo que não venho por aqui e gostei muito do texto. Muito maduro!
Beijos,

Juliana Santana disse...

eu vi esse filme e recomendo. É ótimo.

Bruno Carmelo disse...

Concordo plenamente com a tua análise, o filme é maduro, delicado, como raramente se vê nos filmes com temática gay. E mais uma vez a tradução brasileira reduz a história de amor a um tesão qualquer, enquanto no filme o "pecado" em questão é o amor gay, e não apenas o desejo sexual...

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