Amores Urbanos

A dor da ilusão, do sonho do amor que não cansa de machucar corações ansiosos, o azedo da vida que preenche de dor almas incansáveis por carinho. O segundo longa-metragem do cineasta Roberto Moreira justifica a ânsia atual que o Cinema Brasileiro sente em diversificar suas abordagens — explora-se aqui o discurso sobre a afetividade, o relacionamento sexual da juventude em meio aos seus desejos e expectativas emocionais. Como compreender as relações de amor e sexualidade? Por que tudo hoje é tão efêmero? Existe amor perdurável? Seres humanos envoltos em descobertas sexuais, busca por alguém que lide com suas fragilidades, questões que envolvem o sexo casual: aqui se encontra o argumento principal que mescla inúmeras problemáticas sem fim. Talvez aí seja o erro principal do morno Quanto Dura O Amor?. O roteiro coescrito por Anna Muylaert — que havia surpreendido com o interessante Durval Discos — carece de profundidade maior já que decide explorar a trajetória íntima de alguns jovens sob o congestionado coração agitado da cidade de São Paulo. A desilusão, a falta de perspectiva, as dúvidas e o pessimismo envolvem a trama de todos, ainda que a sexualidade mostre um papel definitivo nas motivações de cada um.

A narrativa recorta as vidas desses indivíduos, todos habitantes do mesmo edifício que fica na esquina das avenidas Paulista e Angélica. São várias histórias que caminham com um mesmo foco problemático, a carência-sexual. Há Marina (Sílvia Lourenço), a aspirante atriz que se muda para São Paulo em busca de realização profissional e acaba se apaixonando por uma cantora de boate, Justine (Danni Carlos); há a advogada bem-sucedida Suzana (Ana Clara Spinelli) que se sente solitária, mantém um segredo e passa a ter um caso com Gil (Gustavo Machado); Jay (Fábio Herford), escritor de um livro só, romântico ao extremo, se liga a uma prostituta (Leilah Moreno) interesseira que só quer dinheiro e sexo sem nenhuma condição afetiva; e temos Nuno (Paulo Vilhena), o namorado de Justine que rivaliza a relação dela com Marina prometendo conflitos incansáveis. Em 80 minutos, o roteiro parece aflito em querer mostrar cada personagem, suas vivências, suas atitudes, mas é fraco por conta de uma superficialidade absurda. Os diálogos são pobres, tornando o filme insosso. A direção não consegue se ajustar ao inseguro elenco que não mantém um ritmo evidente em cenas desconexas, desajustadas. O que parecia um panorama amoroso-sexual torna-se uma abordagem insatisfatória.

A melancolia permeia todo o filme que mantém seus personagens sob uma fotografia de tons azulados, vermelhos e o sol da Av. Paulista. Em meio aos anseios de cada um, o público pode até se envolver com a certa urgência do roteiro explorar a sexualidade. O cineasta Roberto Moreira investe na beleza exótica da cantora Danni Carlos, por sinal as melhores cenas do filme ficam a cargo de sua caracterização e sequências onde pode cantar canções melódicas, talvez o único ponto alto daqui. A relação lésbica da personagem é explorada — Justine é bissexual, vive uma relação conturbada com o personagem do Paulo Vilhena e mantém uma forte atração por Marina, a aparente personagem "mais principal" do filme. Há cenas de sexo, há uma câmera que expressa o tesão das duas mulheres no decorrer do longa, mas o roteiro não consegue trazer maiores compromissos.

Em contrapartida, o roteiro traz bons pontos como as reflexões que os relacionamentos atuais trazem: por que o ser humano é tão carente de amor e sexo? É possível construir uma relação sólida? A visão pessimista do filme parece responder quando situa o poeta Jay tentando de todas as formas conquistar a prostituta fútil, sem caráter, que só quer dinheiro — Leilah Moreno mantém a sensualidade de uma mulher que simboliza o papel rigoroso de alguém que só transa por dinheiro, só ama sob essa condição também. Infelizmente, o público não se envolve melhor, já que tudo é objetivo e sem maiores aprofundamentos. E o segredo da personagem Suzana é o recurso encontrado no roteiro para promover mais uma discussão acerca da sexualidade contemporânea, mas é frágil e nem Moreira sabe causar certa comoção maior em torno de uma situação que poderia render maiores contornos emotivos. Há cenas que a direção parece ser inexistente, gerando um desconforto em quem assiste. Ainda assim, de longe, Maria Clara Spinelli é a cereja talentosa do bolo indispensável que é este filme, visto que sua atuação é bem natural e possui carisma. A lamentar o resultado oferecido pelo cineasta que despontou na cinematografia brasileira com o excelente Contra Todos, onde a originalidade e o caráter reflexivo tinham muito mais textura que esse filme vago aqui.

Quanto dura o amor? (2009, BRA)
Direção de Roberto Moreira
Roteiro de Roberto Moreira e Anna Muylaert
Com Silvia Lourenço, Danni Carlos, Paulo Vilhena, Maria Clara Spinelli, Leilah Moreno

17 opinaram | apimente também!:

Alan Raspante disse...

Roteiro com a mão da Anna Muylaert e ainda um pouco melancólico? Desse jeito eu vou me arriscar a ver, mesmo que o bendito elenco me faça virar os olhos, sabe?

Otavio Augusto disse...

Achei o filme fraco, mas seu texto foi bem melhor, Cristiano... Está cada vez melhor. Meus Parabéns. Adorei a forma como descreveu os aspectos do filme. xDD

Kamila disse...

Que beleza ver um filme nacional sendo analisado por aqui. Isso acontece raramente. :)

Esse eu conhecia, mas nunca tive a chance de assistir. Seu texto, como sempre, MUITO bom!!

Flávio disse...

O espírito desse filme, conforme seu texto , me lembrou do seriado Melrose Place de 1992, no qual jovens adultos moram no mesmo prédio e enfrentam as desilusões provenientes de crueis experiencias de vida.

abs!

J. BRUNO disse...

Ainda não assisti e nem tinha ouvida falar sobre ele ainda,o grande número de personagens já denota a falta de foco da trama, se tivessem decidido focar uns 4 deles a coisa poderia ter sido diferente do que você descreveu, mas talvez a superficialidade tenha sido até proposital e talvez tenha sido usada como elemento narrativo... em todo caso tenho que ver para tirar minha próprias conclusões... tuas resenhas me surpreendem cada vez mais! Abração!!!

Por que você faz poema? disse...

Fraquíssimo!

Gabriel Neves disse...

Ótimo texto, mas acho que eu não veria o filme. Vou passar longe!

Celo Silva disse...

Parece um filme ruim mesmo, pela capa não me chama atenção, mas talvez arriscasse a assistir, pq é nacional, acabo sempre dando uma chance, mas acreditar q Danni Carlos seja o melhor do filme acaba desvalorizando a apreciação antes de conferir...rs. Abração!

http://espectadorvoraz.blogspot.com/

Weiner disse...

Me lembro de filme bem legal e antigo de Anna Muylaert, dirigido e roteirizado: Duravl Discos. E também de um mais recente, com a Glória Pires, "É Proibido Fumar". Ambos me agradaram muito, e este provavelmente o fará. Pena que o elenco seja tão ruim, numa primeira impressão.

Fábio Henrique Carmo disse...

O blu-ray desse filme vive em promoção por 12,90, mas ainda bem que nunca comprei. Abraço, Cristiano!

Edilson Cravo disse...

Um filme de trilha bem bonita, estória bonitinha, melancólico tb, mas aguentar o Paulo Vilhena..afeee..péssimooo...rs.
Abraços e lindo fim de semana.

Adecio Moreira Jr. disse...

Nossa, parece ser tão diferente de Durval Discos! Não me impressionou o argumento principal do filme, e pode ser que nunca poderei vê-lo.

Luís disse...

Devo dizer que esse elenco não me sugere coisa boa, mas há algo no seu texto que me faz crer que o filme verdadeiramente valha a pena. Gosto desses dramas urbanos que discorrem sobre a problemática das relações - mas 80 minutos não é pouco para falar sobre tantos personagens?

Enfim, vou conferir, aí volto aqui para comentar mais aprofundadamente.

Rafa Amaral disse...

Olá amigo cinéfilo!

Acabo de estrear um site voltado exclusivamente ao cinema. Contém críticas, análises, fotos de bastidores e coisas raras. E, logo, contará também com entrevistas com especialistas. Espero que venha conhecer e retorne sempre. Abraços.

O site: www.cinemavelho.com

O twitter do site: twitter.com/cinemavelho

Rafael Amaral

. pamela moreno santiago disse...

Já viu a promoção que ta rolando solta no blog O Leitor?
Ainda não?
Então corre, que até o dia 05 de Fevereiro você ainda pode concorrer a um dos 6 livros que estão sendo sorteados.
Beijos e espero você lá,

Pamela.

railer disse...

lendo seu texto deu vontade de ver este filme...

Cibele disse...

Assisti ao filme porque me tornei fã do Roberto Moreira e da Silvia Lourenço em "Contra Todos". Acho que o roteiro poderia ter sido muito bom, mas faltou profundidade na estruturação das relações.

Realmente, concordo que uma das grandes questões é a carência, e acho que o ser humano é demasiado carente. A carência não é necessariamente de amor, mas de segurança. Talvez o filme tenha pecado em estereotipar o medo da solidão, que de forma explícita ou implícita se encontra em cada personagem.

Infelizmente o filme traz algumas reflexões de maneira um tanto quanto vazias. Mas ainda assim, sou fã do diretor e aguardo ansiosa futuros trabalhos.

Ah, não entendi pq comentaram tanto sobre a relação da personagem da Silvia Lourenço e da Dani Carlos. Foi natural, não achei apelativa. As pessoas tem que parar com o tal provincianismo, isso sim.

Enfim, não sei se falei coisa com coisa! =S

Bjs

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