Triângulo do tesão

Como ter prazer com duas pessoas ao mesmo tempo? A configuração do relacionamento libertário sexual, a forma como se sustenta a paixão entre diferentes pessoas, o desejo tão liberto de convenções sociais da contemporaneidade. Cada vez mais, o cinema proporciona abordagens que exemplificam as questões da sexualidade moderna, diversos filmes já contextualizaram a modalidade do relacionamento a três — Bernardo Bertolucci com o seu cult Os Sonhadores; o provocativo teen Três formas de amar ou mesmo o recente Amores Imaginários de Xavier Dolan. Nota-se uma busca pela intimidade dessas situações. Talvez, a percepção de que o mundo hoje se centra em relações menos envoltas em padrões antigos, já que há uma liberação maior no que tange ao valor de "sexo casual". O cineasta espanhol Salvador García Ruiz é mais um que decide propor a intimidade do desejo de um triângulo amoroso. Em Castelos de Papel, a evidência da juventude em busca de orgasmo. Aqui temos três formandos de Belas Artes que se confrontam com a casualidade lasciva, o que o próprio diretor insistiu em dizer que "trata-se de uma história de amor reflexiva, dotada de luxúria e surpresas". No lançamento desta fita, muito foi falado do tom intimista da obra, mas a verdade é que o que fica mais plausível seja mesmo a força provocativa.

A ideia urgente é mostrar como o sexo é capaz de ser a única sede humana. Maria José (Adriana Ugarte) é uma garota livre de limitações, totalmente permissiva aos encontros sexuais sem maiores envolvimentos. Logo o público percebe que existe nessa personagem uma busca por sexo, como se fosse a única alternativa que move sua existência. Logo mais, depara-se no apartamento dos amigos Jaime (Biel Durán) e Marcos (Nilo Mur). O envolvimento entre os três logo é escancarado, sem muitos diálogos que antecipem uma maior cumplicidade, o diretor não se preocupa em prolongar nada. Em menos de quinze minutos, conferimos uma transa ardente entre os protagonistas. Necessariamente, o roteiro de Enrique Urbizu, baseado no livro de Almudena Grandes, demonstra a intenção maliciosa do universo desses três jovens. A única intenção inicial é a questão do prazer a três, sem maiores amarras ou compromissos. Não é surpresa alguma que o filme seja focado em momentos dentro do quarto, assim o trio exercita as cenas de sexo e podem, indubitavelmente, exercer certa aproximação com o público quando entregam-se aos diálogos íntimos sobre seus anseios, posturas em relação às suas determinações libidinosas e overdose de fetichismo. O diretor não provoca nada além disso, não se pode elocubrar também algo mais.

García Ruiz é astuto em colocar seus atores bem à vontade em cenas picantes, quase sob um estouro erótico, podendo ser caracterizado objetivamente como um filme soft-porn. As cenas de sexo são prolongadas ao máximo, há o nu frontal bem intencionado e a provocação em expor diversas transas entre os três. Infelizmente, a abordagem torna-se frágil por não expor maior profundidade no que tange às personalidades ou mesmo perspectivas de cada um. O que parece é que o único intuito era, apenas, mostrar como um triângulo amoroso se configura sexualmente — obviamente, diversos filmes conseguiram sustentar um maior sentido argumentativo do que este. Em contrapartida, o filme traz bons contornos ao explorar problemáticas evidentes do caráter sexual de seus personagens: Maria José não consegue ter orgasmo quando transa; Jaime demonstra ter tesão quando há um sexo compartilhado na presença de Marcos e este, por sua vez, tem impotência, sofre com sua condição constrangedora.

O público embarca no jogo de sedução, envolvimento e busca por proporção de prazer desses três — mas perguntas tornam-se constantes já que o roteiro não se dispõe a maiores explorações. Ainda assim, é um filme de bom sustento emotivo, já que acaba por manter o mesmo destino de abordagens semelhantes: ao fim, o que parecia sexo casual e envolvimento por prazer a três, torna-se disputas passionais já que cada um passa a sentir-se aflito. A insegurança de cada um dos dois homens que se apaixona por Maria José, cada qual na disputa pessoal. Com quem a jovem vai ficar: Jaime ou Marcos? E nisso também não é nada inovador, já que vários filmes já exemplificaram as questões de relações que começam firmadas no intuito do sexo e passam a condicionar-se no sentimento. O trio de atores, felizmente, confere boas atuações. Mas a direção de García Ruiz é apática em algumas cenas, sem muito esmero. Ainda assim, a abordagem é valorizada pelas sequências de sexo que não são nada conservadoras. Acima de tudo, um filme bem carnal.

Castillos de Cartón (2009, Espanha)
Direção de Salvador García Ruiz
Roteiro de Enrique Urbizu baseado no livro de Almudena Grandes
Com Adriana Ugarte, Biel Durán, Nilo Mur

15 opinaram | apimente também!:

Luís disse...

Parece ser uma obra interessante, principalmente pela abordagem. Inevitavelmente me sinto atraído por filmes dessa temática e, tendo lido sua resenha aqui, decerto irei procurar pela obra a fim de conferi-la - mesmo havendo características mal desenvolvidas na trama.

Mas, me diga, os rapazes também têm contato sexual ou é como em "Os Sonhadores"?

Luciano Braz disse...

Parece interessante!

Kadu Ccine10 disse...

Já pelo seu texto o filme parece mais do mesmo... não sei se quero ver. rs

Vamos ver. Belo texto.

Gabriel Neves disse...

Bacana, seu texto e as imagens do fim me deixaram instigado pelo filme. Sua descrição me lembrou um pouco do filme Drama também, a não ser pela urgência do sexo que você fala.

J. BRUNO disse...

Não sei Cristiano... eu sempre tenho um pé atrás com filmes nos quais o sexo é explorado como a vertente principal da obra, só acho que tal situação se justifica quando a sexualidade funciona como metáfora para outras questões, quando se tem uma trama maior que vá além das transas mostradas... Pela sua resenha deu para perceber que ele tem um pouco disso, de qualquer forma ele me deixou curioso, você disse no face que tem como fazer o download pelo torrent, eu vou procurar!

http://sublimeirrealidade.blogspot.com/2012/02/mad-men-serie.html

Kamila disse...

As fotos já são bem picantes, hein?? Uma pena que o roteiro tenha alguns problemas, mas isso não parece ter prejudicado o resultado final da obra, pelo que você menciona em seu texto.

Rodrigo Mendes disse...

Bertolucci foi mais feliz com "Os Sonhadores", o fundo político e a relação com o cinema e mesmo os três personagens, infelizmente este 'Castillos de Cartón' não tem uma premissa atraente, mas vale pelas cenas calientes de sexo apimentadas que são até um pouco poéticas. Mas achei que o filme merecia mais.

Ótimo texto Cris!
Abs.

Jhê Delacroix disse...

Curti! (:

Diego Lanza disse...

É um soft porn do tipo de "o homem no banho"? Pq eu ODIEI esse filme, justamente pq o diretor usa o sexo pra exemplificar os sentimentos dos personagens -e ao meu ver virou uma mera desculpa para ver pau e sexo gay.
Sobre ter prazer a três, acho complicado, pq geralmente a configuração básica é no meio, um pinto na boca, outro na vagina ou no ânus ou uma Dp. No caso gay, idem: na boca e no anûs ou Dp. E algumas variações com masturbação. Acho complicado, corporalmente falando. Só não é pior que orgia... hehehe

Márcio Sallem disse...

Esqueceu um triângulo amoroso recente: 3, de Tom Tykwer.

Cristiano Contreiras disse...

LÚIS: Eu acho que o filme tem seus momentos preocupantes e uma direção fraca, mas no fim é um trabalho que merece sim ser descoberto. Eu acho quente, sexy e ousado. E, não, os rapazes não se pegam, rs!

LUCIANO BRAZ: É, sim, confira!

KADU CCINE10: É mais do mesmo, sim, mas acho que você pode gostar, confira! Adoraria ler seu texto sobre.

GABRIEL NEVES: Obrigado! Então, não é semelhante ao DRAMA, mas ele se assemelha às obras que citei no meu texto, só que é um filme inferior a elas, entende? É bem sexual, apenas isso, eu acho que você poderia ver e comentar sobre em teu blog também.

J.BRUNO: Eu acho que o filme pode satisfazer àqueles que esperam cenas quentes e de sexo, mas quem procura mais que isso, é complicado. Ele acha facilmente no torrent, procure mesmo!

KAMILA: Olhe, é bem picante mesmo, mas tem problemas demais. Depois confira, quando puder, Ka!

RODRIGO MENDES: Foi muito mais feliz e astuto, claro, comparar essa produção aqui ao Bertolucci é praticamente impossível, né? Mas, assim, não é um filme péssimo, só acho que tem problemas, como disse no meu texto, entende? E obrigado pela visita!

JHÊ DELACROIX: Que bom!

DIEGO LANZA: É tipo esse filme, eu acho que falar de sexo é interessante, mas precisamos de um roteiro que ouse mais na forma como vai delinear as personalidades dos personagens e suas motivações, sabe? Não basta apenas mostrar sexo e pronto, não quero filme pornô.

MARCIO SALLEM: Esse filme não conferi, ainda, por isso não teci comparações.

Virtudes do Coração disse...

Ainda não assisti esse filme mas creio que pelo seu texto não seja um filme tão impactante. Já vi "Três formas de amar" e como você mesmo disse é um filme "teen" que no máximo põe fogo na imaginação de muitos adolescentes. Acredito que esse filme deva explorar bem mais a questão do sexo, o que não vem a ser algo ruim já que nossa sociedade precisa largar a hipocrisia e discutir mais esse tema.

Virtudes do Coração disse...

Eu já vi "Três formas de amar" e como você mesmo disse é um filme bem teen que ao meu ver serve pra despertar a imaginação de muitos adolescentes. Quanto as cenas de sexo e o fato de ser praticado a 3, de certa maneira acho viável já que nossa sociedade ainda se encontra tão arcaica no que se refere a alguns conceitos.

Salvador da Silva PraJá disse...

Vamos lá... certamente é um filme sensual, as cenas sexo tinham sensibilidade o bastante para não se tornarem banais, merecendo algumas ereções espontâneas com louvor. A técnica é também um ponto a favor do filme, a luz mimetizada de Bertolucci, me faz crêr que "Os Sonhadores" realmente é um filme com o qual todo diretor tem que se haver quando o tema triângulo amoroso é tratado...; boa montagem; boa fotografia; enfim... é um filme que não faz vergonha. Entretanto, é no roteiro que ele perde o fôlego em três questões que para mim foram cruciais, a saber: não é um triângulo perfeito, como em "Três Formas de Amar", que dá mais asas à imaginação; o roteirista peca justamente quando restringe, "yo no soy gay, Jaime"; e é um filme que padece por falta de conflito. Inicialmente, cheguei a me lembrar de Farinelli, mas naquele caso, era um homem castrado que vivia naturalmente seu próprio conflito entre o talento da voz, e a impossibilidade de gozar, e seu irmão, que tinha sido o seu algoz castrador, se aproveitava da fama lhe cabia para gozar (bem mais barroco); Em Castillos de Cartón, não... tudo é muito trivial e corriqueiro. Aos 45 minutos, comecei a me agoniar, porque nada acontecia... cheguei a me perguntar porque mesmo gastaram dinheiro com os figurantes da família de Jose, se eles não serviam pra nada? Digo... é a mais absoluta falta de conflito, tudo era muito perfeitinho: dois pobres, um rico (resolvido); ninguém tem orientações sexuais "estranhas" (ótimo); uma famíla variando entre o nude e o branco gelo; amigos entre compreensivos e petrificados; Ok... um impotente que tem uma ereção sem explicação aparente e eu cheguei a achar que ninguém nunca demonstraria ciúmes... o que de fato QUASE ocorreu. Enfim... um filme bem feito, mas que careceu de um molho mais latino.

Alyson Santos disse...

Com a maioria das vezes, este é um filme ao qual não conferi. Deve ser curiosa essa situação de um cara só sentir prazer quando o outro está somado a impotência do outro rapaz e a bendita não consegue atingir o ápice. Deve ser, no mínimo, desconfortável presenciar tal situação. Abraço!

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