Amor pós sexo


Hector Babenco já concebeu trabalhos mais polêmicos como o premiado O Beijo da Mulher-Aranha (William Hurt levou o Oscar por interpretar um prisioneiro político homossexual), Pixote ou Carandiru. Neste filme aqui sua intenção é promover um recorte dos relacionamentos amorosos conturbados e dotados de dependências emocionais. Baseado no livro homônimo do argentino Alan Pauls, O Passado é um conto melancólico e psicológico de paixão e desejo. O roteiro explora a forma como inúmeros casais não conseguem se adaptar emocionalmente com a perda do antigo vínculo. A terrível realidade quando o amor transforma-se no tédio, no azedo cotidiano, numa vida sem libido. É o caso perfeito aqui a ser discutido, a separação como elemento de preocupação humana. Como lidar quando alguém que você conviveu durante anos simplesmente decide te abandonar? E, pior, e se existe ainda sentimento e certo apego — ou desejo — ainda evidente? O foco da trama é no tradutor Rimini (Gael García Bernal), o típico homem galante, que adora sexo, repleto de hormônios definidos, usuário constante de drogas. O filme percorre a perspectiva deste indivíduo de maneira íntima, numa narrativa que, ainda que lenta, mantém um cuidado maior com seus personagens, por conta do olhar atento e até da provocação que se torna o elo ideal pra discussão de temáticas: o sexo, o louco-amor, a carência afetiva.

No princípio, temos a quebra de uma relação de 12 anos de Rimini com Sofia (Analía Couceyro, a interpretação mais elétrica do filme), é esse sentido que coloca todo o tom narrativo. Após a separação do casal — entende-se que eram pessoas conectadas, de grande amizade e sintonia sexual —, o jovem procura lidar com a nova vida e parte em busca de mudanças. O filme mostra com objetividade que há uma aflição, uma dependência de Sofia em relação à figura do ex-marido. Babenco escancara que ali há um casamento mal-desfeito, o princípio de crueldade e amor obsessivo que vai permear toda a projeção dos acontecimentos.

Aqui há o retrato de uma mulher que, sentindo-se rejeitada, parte para a busca da conquista do homem que galgou novos rumos — Sofia preserva seu ciúme imoderado e o desejo de reconquistar Rimini. Quando este se envolve com outra mulher — Vera (Mariana Anghileri), uma sensual modelo folgosa —, Sofia exerce sua fúria e imerge no seu caminho, disposta a mostrar que Rimini ainda é seu. É então que o traço de amor violento é muito bem delineado no roteiro ao colocar a vida de um indivíduo sendo desestruturada por conta de uma mulher que não aceitou a rejeição.

Basicamente, O Passado explora a trajetória do personagem de Gael García Bernal após a separação. Rimini é o homem cansado de um casamento morno, para tanto parte em busca de novas experiências sexuais e maiores sensações através do vício com a cocaína e encontros mais quentes com mulheres permissivas. O roteiro nos traz um modelo de homem que não consegue atenuar a libido — após a breve relação com Vera, surge outra fêmea no parâmetro, Carmen (Ana Celentano, excelente atuação), colega de profissão que mexe com seus instintos libidinais e logo promove um condicionamento perfeito: uma relação voltada à intelectualidade e fetiche.

É então que Babenco explora bem o caráter sensual de seu filme nas cenas quentes que mostra que Rimini não consegue ficar sem sexo diário, nem muito menos despreza novos flertes com outras garotas. Além disso, o roteiro traça maior problemática ao colocar a possibilidade deste homem reestruturar-se com uma nova mulher e ter um filho — motivo de polêmica que vai fazer com que Sofia entre em voga, novamente. Analía Couceyro exibe uma atuação emocional, agressiva e transtornada como essa mulher que até se humilha sexualmente para ter alguém que tanto se viciou. E é justamente suas cenas que caracterizam uma concepção mais ágil e densa, além de estabelecer a sexualização: o público percebe a malícia e vulnerabilidade de Sofia que sempre se insinua para Rimini.

Constantemente, a trama tenta dialogar como é complicado um ser humano desvincular-se de alguém que conviveu tanto tempo, de um casamento antigo. É uma história de amor obsessivo que já fora muito debatida em outras abordagens, mas aqui encontra um bom apelo realístico e sem contornos melodramáticos, ainda que o filme tenha certas situações de extrema indisposição pro personagem Rimini. Gael García Bernal assume um tom mais introspectivo, calado, mas de fortes ações em momentos onde seu personagem verbaliza bem o tormento que é ter, na cola, uma mulher que traz à tona seu passado e o aprisiona num calabouço de tragédia com situações colocadas no seu destino.

Nota-se, ainda, o apelo sutil da sensualidade deste ator — afinal, seu personagem é o centro de tesão de muitas mulheres durante o decorrer das ações narrativas. Por isso, inúmeros planos-sequências enquadram cenas de sexo onde as mulheres aparecem despidas e dispostas a montar e mordiscar o corpo de Rimini, num exercício de coito dominador do fetiche. Por sinal, o público mais conservador pode se indignar com a maneira como o filme mostra as mulheres mais permissivas ao sexo-livre, à transa sexual e sem amarras, num quase senso de vulgarização do papel feminino. Ainda assim, Hector Babenco sabe transpor essa atmosfera de “gente como a gente”, verticalizando as ânsias do sexo e da busca pela “felicidade almejada” do protagonista, enquanto se refletem as noções de amor destrutivo, de como é necessário lidar quando o sentimento acaba e deve ser respeitado. Interessante o trabalho de composição de diálogos, já que o próprio cineasta, na ocasião de lançamento deste filme, disse que o livro de Alan Pauls parecia ser intransponível por tratar-se de uma linguagem de silêncios, divagações e percepções mais existenciais da sensibilidade humana. O resultado é competente, ainda que pequeno, mas que cumpre seu princípio de retratação de mundo relacional firmado em amor doentio. 


El Pasado (Argentina, Brasil, 2007)
Direção de Hector Babenco
Roteiro de Hector Babenco, Marta Góes, baseado no livro de Alan Pauls
Com Gael García Bernal, Analía Couceyro, Ana Celentano, Mariana Anghileri

12 opinaram | apimente também!:

Kamila disse...

Me lembro que, quando eu assisti "O Passado", achei a narrativa muito lenta. Isso sempre prejudica um filme, na minha opinião. Concordo com você em relação à atriz que interpreta a personagem principal feminina da obra. A atuação dela é uma das melhores coisas que "O Passado" tem. Belo texto! Parabéns!

Clenio disse...

Oi, quanto tempo, não? Vou ver se agora crio vergonha na cara e volto a comentar nos blogs amigos...

Quanto a este filme... Bem, li o livro e o enfoque dele era bem menos sensual do que a versão cinematográfica, mas tão lento quanto.

Não concordo com as pessoas que criticam a "permissividade feminina", acho que o filme apenas fotografa sem pruridos um situação cada vez mais convencional da situação feminina, a de buscar o prazer (ou tudo que advenha dele) da maneira que os homens sempre fizeram.

No final das contas, acho que o filme se concentra demais no sexo e acaba diluindo o teor mais depressivo do romance - além de ter uma personagem central feminina muito, mas muito chata.

Abraços
Clênio
www.lennysmind.blogspot.com
www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com

Sintia Piol disse...

Quando assisti o filme não me foi muito atrativo, apesar de adorar Gael. Acho que faltou algumas coisinhas. Mas, como sempre vc sempre mostra o que há de mais envolvente na obra. Ai dá aquela vontade de dar uma segunda olhada.

Bjos apimentados e como sempre, parabéns. Texto sedutor!

Gabriel Neves disse...

Não li o livro e nem tinha conhecimento do filme. Mas são 3 as coisas que me fazem querer conferir O Passado. Primeiro, há a atuação de Gael García Bernal, de quem sou fã. Depois, há a direção de Héctor Babenco, que deve ser maravilhosa. Por fim, há seu texto, que é incrível. Por mais que eu não passe por nada do que o filme descreve, você leva a gente para a mesma atmosfera da fita só que com palavras. Não dá pra não querer conferir.
Abração!

Celo Silva disse...

Acho O Passado um otimo filme. Gosto muito como Babenco traça o perfil do personagem e suas perdas. De certa forma me identifico com Rimini. Ótimo texto. ;)

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J. BRUNO disse...

Ainda não o assisti, na verdade eu tenho uma grande dívida com a filmografia do Hector, também não assisti "O Beijo da Mulher Aranha" que talvez seja a sua obra prima...

Me interessei pelo filme, gosto deste tipo de abordagem que mostra os relacionamentos de uma forma mais seca e por isso mais real, vou acrescentá-lo à minha lista... Já assistiu "Blue Valentine" de novo???

sandra cristina disse...

Ótimo texto, descrição muito realística da sinopse. Dá vontade de conferir. Babenco é bom prá caramba.
E parabéns pelo selo! Você realmente merece!
Beijos.

O Homem da Câmara de Filmar disse...

Olá, parabéns pelo teu blogue cheio de pimenta eheh. Tens belos textos. Abç

Ccine disse...

Ainda, não assisti a esse filme, desde quando vi o trailer pela primeira vez, achei que fosse um bom trabalho de Hector Babenco, preciso procurar para conferir.
Ótimo texto como sempre.

Emmanuela disse...

Olá!!

Que prazer ter um recente comentário seu no cinema pela arte! Na minha opinião, "O Passado" é um filme penetrante, pulsante. Já o vi mais de uma vez e, após ler sua resenha, senti a vontade de vê-lo novamente. O ritmo não me pareceu moroso, mas sim compatível com uma narrativa que exige tanto envolvimento.

Gael García Bernal é um ator definitivamente sensual, que aquece a ficção.

Beijos!

Júlio Pereira disse...

Tenho certa curiosidade para conferir alguma obra do Hector Babenco, já que, pasme, nunca vi nada dele. Tenho até O Beijo da Mulher Aranha no meu computador, mas faltou tempo para vê-lo. Pode ser que comece por este trabalho dele, que me senti instigado pelo seu texto, que narra-o com bastante entusiasmo. E Gael Garcia Bernal, por mais que esteja emplacando bomba atrás de bomba, ainda me empolga e é um ator competente.

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