Libido feminina musical


“Rock'n'roll é um esporte sangrento. É para homens. Para as pessoas do lado negro. Masturbadores, marginalizados.” Por que não usar o rock um ato de expressão feminista? Como a música é capaz de promover uma liberdade comportamental? Mais que um recorte sobre as trajetórias da puberdade libertina de duas mulheres — as cantoras Cherrie Currie e Joan Jett que formaram a extinta banda The Runaways —, o filme dirigido e com roteiro da diretora de videoclipes Floria Sigismondi toma como base os relatos pessoais e íntimos das perspectivas de Currie, o livro “Neon Angel: The Cherie Currie Story”. É um nítido retrato sobre a expressão feminista e liberação sexual num período de grandes manifestações juvenis e exploração criativa musical. The Runaways não é uma cinebiografia sobre a construção da banda, mas sim um olhar mais íntimo na relação de amizade e nas próprias perspectivas das garotas — o envolvimento musical, afetivo e até libidinal vivenciado por Currie e Jett, interpretadas com eficiência e dedicação por Dakota Fanning e Kristen Stewart. É um olhar bem feminino sobre posicionamentos das ideologias, personalidades e contornos comportamentais dessas mulheres que usaram do rock uma expressão de vida e de liberdade de mulher.

Ao abarcar o período de 1975 a 1979 da explosão musical e sucesso da banda The Runaways, este filme claramente exibe o argumento da sexualidade, da quebra de tabus femininos e da maneira como a mulher procurava, irrevogavelmente, desfragmentar os laços com o machismo e as ideologias patriarcais. Mesmo frágil, polido e com um roteiro sem grandes aprofundamentos, o olhar de Floria Sigismondi alerta ao público sobre esses indícios ao colocar jovens mulheres em busca de “liberdade” e expressão musical — o filme mostra como existia preconceito para qualquer mulher, naquele tempo o rock era sinônimo da masculinidade e não havia espaço aparente para um grupo de adolescentes dispostas a dominar guitarras elétricas. 

Em linhas gerais, a representação do feminismo é evidente, pois a banda desafia a comunidade roqueira que enxerga o sexo feminino como algo frágil e incapaz de mostrar atitudes e dureza musical — Michael Shannon personifica o histérico produtor Kim Fowley, o homem irônico e peculiar, que faz com que essas garotas se tornem mais rígidas, capazes de mostrar que o rock é também um posicionamento feminino e que a agressividade é algo a ser viabilizado.

Além da vertente feminista assumida pelo roteiro, a caracterização hormonal é facilmente percebida. Dentro do cenário de filmes que envolvem temáticas de rock ou mesmo sobre caracterizações de personalidades famosas, a questão da sexualidade sempre é discutida. Neste caso, a homossexualidade entre Joan Jett e Cherrie Currie. O público mais ávido por cenas sensuais, provavelmente vai se sentir frustrado, por conta da pouca exploração neste sentido. A sensualidade é mais sutil, sem grande provocação na trama, mas é nítida.

Na época da produção, houve pressão por parte dos pais de Dakota Fanning e o teor mais provocador do roteiro — inúmeras menções ao envolvimento sexual das cantoras, cenas de beijo e explicitações carnais — foi atenuado para que a atriz permanecesse no filme. Talvez, aí seja o erro, pois a relação das duas por um lado é bem construída emocionalmente, mas perde força por atenuar o lado mais libidinal. Ainda assim, as poucas cenas, provam que existe uma química de Fanning com Stewart.

Instigante como a banda era tão ousada e sexualizada — as músicas, a maneira como Cherrie Currie utilizava de roupas e expressões corporais nos palcos —, é a típica concepção de como a ideia do sexo está muito atrelada ao rock. A canção mais famosa, "Cherry Bomb", é um belo exemplo de sinônimo de rebeldia e sensualidade expressiva. E Floria Sigismondi investe sutilmente nesses elementos básicos da sedução ou mesmo na maneira como, por exemplo, Kristen Stewart utiliza de trejeitos masculinos como Joan Jett — representação óbvia da concepção comportamental lésbica? 

Ao ver o filme, pode-se constatar que a banda The Runaways era mais que um marco na história do rock'n'roll. Mas, assim como tantas bandas da época ou até da atualidade, foram "formadas" para ter sucesso — tinham diferenciais e qualidades, porém esses sensos não fizeram que permanecessem na ativa. De acordo com o filme, fica evidente que a “ovelha-negra” feita por Fanning não parecia mesmo que queria só se rebelar perante o sistema machista, curtir música, mas não tinha um tesão avassalador para viver naquela realidade. Ao contrário de Stewart que mostra que Joan Jett aparentava mais prazer, dedicação pelas músicas que escrevia e por viver neste universo tão atraente de drogas e sexo e música, um mundo tão dinâmico e insano e efervescente.

Enfim, com uma proposta tão grandiosa e, ainda que tenha um resultado bem acima da média,
The Runaways é puro hard-soft e carece de um “erotismo roqueiro” mais evidente, tão necessário a esse tipo de produção. Com uma fotografia e edição ágeis e bem executadas, o filme se sustenta também no corpo da trilha sonora que tem canções de David Bowie, The Stooges e as próprias músicas mais célebres da banda The Runaways. Ao contrário de filmes mais contundentes como "Johnny e June" sobre Johnny Cash, "The Doors" sobre Jim Morrison ou mesmo "Control" que mostra as dores do Ian Curtis do Joy Division, faltou mais ousadia, coragem e espírito punk.

The Runaways (EUA, 2010)
Direção de Floria Sigismondi
Roteiro de Floria Sigismondi, baseado no livro de Cherie Currie
Com Kristen Stewart, Dakota Fanning, Michael Shannon, Stella Maeve

12 opinaram | apimente também!:

Rodrigo Mendes disse...

Belo texto Cris, de fato o filme não era ousado como "parecia". Em minha opinião começa pela escolha das protagonistas. Dakota Fanning e Kristen Stewart não tinham a maturidade para encarnar as moças do The Runaways, certamente (como você argumenta numa curiosidade em seu texto) quanto a posição dos pais da Dakota, evitaram que a fita fosse mais explícita. De qualquer forma o enredo é interessante, mas acho que seria apropriado para garotas mais velhas. Quem sabe seria melhor uma Kirsten Dunst e Emma Stone, talvez.

Agora eu fico me perguntando, o que foi a Rainha do Rock Janis Joplin num tempo ainda mais conservador desta visão machista sobre as mulheres no Rock'n'rol? A união faz a força, mas a Janis encarou a dureza sozinha.

Abs.

Kamila disse...

O ponto que eu mais gostei nesse filme, além das atuações de Kristen Stewart e Dakota Fanning, foi a forma como o roteiro explora essas mulheres de personalidade muito forte entrando e se firmando num mundo extremamente dominado pelos homens. Elas eram duronas e souberam muito bem se conduzir no mundo rock 'n roll! Parabéns pelo ótimo texto!

Hugo disse...

Ainda não vi o filme para ter uma opinião, mas pelo seu texto fica claro que a parte picante da história das protagonistas foi em parte "censurada".

Abraço

Carissinha disse...

Texto muito bom.
Gosto do filme, acho que a Dakota consegue interpretar bem qualquer personagem, e é uma das melhores interpretações da Kristen. É fato que amenizaram a relação da Cherie e da Joan, o que pode ter prejudicado o roteiro; mas em geral, gosto do filme.

J. BRUNO disse...

Gostei bastante deste filme, mas sou suspeito para falar porque eu já era um grande fã da banda... Concordo com você que ele carece de uma pegada mais ousada, mais punk como você bem classificou... Ao contrário de muitos, eu gosto das atuações da Dakota Fanning e da Kristen Stewart, mas concordo com o Rodrigo, que talvez elas não fossem as escolhas mais apropriadas para ele, principalmente a Dakota por esta questão com a família dela...

renatocinema disse...

Acho que sou ET. Não conheço ninguém, além de mim mesmo, que não tenha gostado.

Eu não curti. Achei bem decepcionante.

Gabriel Neves disse...

Bom texto, Cris, mas eu acho The Runaways um filme bem mediano na sua proposta. Eu esperava bastante pela cinebiografia da The Runaways e, vendo o resultado, me soou incompleto no final. Ainda bem que o filme guardou algumas surpresas, como as ótimas atuações de Dakota Fanning e Kristen Stewart.
Abraços!

Adecio Moreira Jr. disse...

Eu lembro que não tinha achado grandes coisas desse filme. O trabalho de Dakota é realmente encantador, mas Kristen, em contrapartida, é da causar asco.

De modo geral, acho que o filme cumpriu o seu (modesto) papel.

Saudades de ti, Cris!!!

Otávio Almeida disse...

O que falta no cinema é falta de ousadia. Os filmes estão muito redondinhos. Prova disso é escalar essa menina aí (Kristen Stewart) pra filmes importantes. Como o "On The Road". Talvez o Walter Salles tenha sido obrigado a escalar essa garotinha. Não sei.

Pra mim, esse filme sobre uma lenda como Joan Jett terminou num "fede nem cheira". Algo inversamente proporcional a sua carreira musical.

Abs!

Júlio Pereira disse...

Na época do lançamento deste filme não me interessei, e continuo desinteressado. Oras, é óbvio que um filme com duas dondocas como protagonistas não teriam o espírito rock 'n' roll que deveria. Não posso julgar, claro, mas tive preconceito - e admito. A banda, no entanto, é fenomenal e um verdadeiro marco revolucionário na história do rock 'n' roll!

Amanda Aouad disse...

"The Runaways não é uma cinebiografia sobre a construção da banda, mas sim um olhar mais íntimo na relação de amizade e nas próprias perspectivas das garotas". Isso é mesmo o mais interessante do filme, que realmente não fala do grupo, mas dessas duas personagens principais. Agora acho que exagera nos momentos clipados, por exemplo. E poderia desenvolver melhor o encadeamento da história.

bjs

Marcio Melo disse...

Gostei do filme mas é realmente um "hard soft" como você disse.

Um pouco mais de ousadia e do espírito Rock'n'Roll e este seria um grande marco também nos cinemas.

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