Holocausto homossexual


“Bicha não foi feita para amar. Ninguém aceita isso.” Premiado dramaturgo, o norte-americano Martin Sherman escreveu Bent por volta de 1978. O resultado foi um sucesso, tendo sido laureada com o Royal Court Theatre em Londres e encenada em mais de 50 países nos anos posteriores. Vinte anos depois, seu texto foi adaptado por ele mesmo e tendo a direção no comando de Sean Mathias. O filme traz basicamente todos os diálogos e atos principais, além da exímia abordagem provocadora. Mais que um retrato tocante e contundente sobre a Segunda Guerra e o a perseguição de judeus, trata-se de registrar a perseguição sofrida pelos homossexuais que eram torturados e mortos pela Gestapo, em pleno fascínio e ascensão do período nazista. Pouco se sabe, na verdade, sobre como funcionava extermínios aos homossexuais — sabe-se que mais de 50 mil tenham sido executados de maneira perversa. O filme procura esmiuçar esse triste panorama através de alguns personagens homossexuais que condicionam um estudo sobre o horror do holocausto e da intolerância sexual.

Esta adaptação cinematográfica mostra a trajetória de Max (Clive Owen), um homem boêmio e que passa a vida participando de sexo casual com desconhecidos, imerso em encontros e festas, sem apego a um relacionamento sério. Interessante que o filme logo expõe, nos primeiros minutos de exibição, esse caráter "libertino" do protagonista — Max visita uma espécie de cabaré ou reduto liberal LGBT, uma zona noturna em Berlim onde homens e mulheres promovem orgias, peças teatrais ao ar livre com cunho erótico; um típico antro secreto de perversão e libido social. A ambientação de sensualidade e senso homoerótico é logo transposta ao público nessas sequências, inclusive na breve participação de Mick Jagger como um travesti nonsense, irônico e extravagante. 

A problemática narrativa logo se acentua: a caça aos homossexuais. Diante da ascensão do nazismo e do Terceiro Reich, não existia não só judeus livres: nenhum gay poderia viver tranquilo. Hitler decide acabar com todos os "pervertidos sexuais" da cidade, incluso todos que tivessem ligações com patentes da SS ou mesmo frequentadores do tal cabaré. Preso e levado a um campo de concentração de Dachau, Max decide mascarar sua sexualidade ocultando que é gay. 

Ser homossexual naquele local era sinônimo de lixo, um zé-ninguém e o podre humano: seria torturado por qualquer um, até pelos próprios prisioneiros. Por isso, Max prefere usar no peito a estrela amarela, famosa por identificação judia, ao invés de ser "marcado" com um triângulo rosa que servia para restringir o homossexual. É lá que conhece Horst (Lothraire Blutheau), um destemido jovem que se orgulha de sua sexualidade e, por essa condição, vivencia inúmeras torturas psicológicas e humilhações constantes, porém não oculta suas preferências e se vangloria pela sua "marca". Obviamente, existirá uma aproximação entre esses dois e o senso romântico e a tensão sexual irá despertar sentidos intensos nesses dois homens.

Ainda que tenha sido tão ousado e provocador nos primeiros minutos, o cunho sexual explícito é logo convertido num senso mais emocional, poético. A direção de Sean Mathias prioriza os diálogos e ações — levemente teatrais e que não esconde as origens — de seus dois amantes em cena. É interessante ver não só o desejo, mas o sentimento sendo cultivado dentro de uma realidade tão cruel. O filme mostra a dificuldade de Max em lidar com sua sexualidade, tendo que esconder mais por medo de ser descoberto pela Gestapo, afinal existia o perigo de ser rapidamente executado. 

Ademais, há ainda sua relação íntima sendo aflorada sob o caos ao redor, a opressão, os ditames do campo de concentração que impede qualquer manifestação de afeto ou mesmo contato físico — a sequência em que ambos "transam" por meio de palavras e diálogos trocados, simulando o toque ou mesmo o entrosamento carnal, é de uma sensibilidade e erotismo conceituais. Clive Owen e Lothaire Blutheau exprimem o sofrimento de amar e o desejo voraz de dois homens que não podem externar tudo que querem. 

Nota-se que a intenção de mostrar também como os homossexuais lidavam com aquela situação no período de Guerra. Existiam as questões de classes sociais — Ian McKellen faz uma breve participação como tio de Max, um homossexual que, por ter uma boa posição financeira, consegue se manter afastado de problemas e suborna oficiais alemães para ser livre dos campos de concentração. 

Bent também nos mostra como os gays precisam se submeter às situações extremas — como fazer sexo oral com oficiais para obter medicações ou mesmo favores dentro dos sistemas rigorosos e corruptos dos campos de concentrações. É interessante observar esses contextos — não só a relação principal do romance de Max com Horst que, no geral, é o grande aperitivo emocional deste filme. A direção de Sean Mathias é segura, o roteiro aprofunda o caráter e dar complexidade aos personagens e contextos, além da belíssima trilha melancólica orquestrada por Phillip Glass. É um filme de extrema importância para a cinematografia, um trabalho humano.


Bent (EUA, 1997)
Direção de Sean Mathias
Roteiro de Martin Sherman, baseado em seu livro
Com Lothaire Bluteau, Clive Owen, Mick Jagger, Ian McKellen

13 opinaram | apimente também!:

Hugo disse...

O filme utiliza uma questão pouco abordada no cinema, a do homossexual no Holocausto. Quase todos os filmes tocam apenas no drama dos judeus.

Pretendo assistir ainda.

Abraço

J. BRUNO disse...

Eu já tinha ouvido falar dele, mas eu ainda não sabia nada sobre a trama, ao contrário do que eu pensava, ele não parece ser mais um dentre tantos filmes, com distintas abordagem, sobre a segunda guerra, realmente aparenta ser uma grande obra...

http://sublimeirrealidade.blogspot.com.br/2012/06/pulp-fiction-tempo-de-violencia.html

http://sublimeirrealidade.blogspot.com.br/2012/06/as-bicicletas-de-belleville.html

Rayan disse...

Excelente filme, e o seu texto conseguiu sintetizar bem o que a película tenta passar. Acho que é um dos poucos filmes que entra nesse campo da homossexualidade durante a ascensão do nazismo e o período subsequente, da Segunda Guerra. Muitas cenas são extremamente marcantes, os diálogos travados pelas personagens principais não apenas se aplicam nessa realidade, mas são extremamente atuais; refletindo sobre o filme a gente vê que a situação do homossexual não é tão diferente da exposta, onde você só poder ser quem você é em verdadeiros guetos, você sofre preconceito e humilhação, dentre outras situações.
Recomendo muito para quem ainda não assistiu

Kamila disse...

E quando você pensa que todas as abordagens narrativas possíveis sobre o Holocausto tinham sido feitas, eis que descubro esse filme, por meio de seu ótimo texto. Fiquei curiosíssima!!

Fábio Henrique Carmo disse...

Eu meu recordo de um amigo meu falando sobre esse filme, ainda nos tempos da faculdade. Realmente interessante uma abordagem sobre um tema pouco visto nas telas. E curioso que um dos atores é Clive Owen, nem imaginava sua participação. Abraço e até a próxima, Cristiano!

Júlio Pereira disse...

Interessante e bem original essa abordagem do tratamento aos homossexuais no holocausto. Pouco se fala disso, né?! E nunca vi um filme que trata isso, na verdade. Só de ter uma participação do Mick Jagger já vale o filme, né! haha

Gabriel França disse...

Nossa, quero muito ver este filme. Parece ser bem interessante, vou procurar.

http://monteolimpoblog.blogspot.com.br/

Marcelo A. disse...

Um dos meus preferidos, seguramente. Não tenho muita simpatia pelo Clive, mas o acho perfeito nesse papel. E os diálogos? Não é à toa que a "transa" deles é, para mim, uma das melhores de todo cinema.

Belo texto!

railer disse...

sempre ouvi falar desta história, inclusive a peça esteve em cartaz aqui no rio, mas eu nunca vi. agora fiquei com mais vontade. vou alugar este filme!

Mayara Bastos disse...

Fiquei curiosa. Pelo seu texto, parece que retrata um lado pouco explorado do tema...

Teago de Assumpcao disse...

adorei esse filme...
ele nunca sai da minha lista...

Thiago Lumi 7 disse...

Muito interessante o tema. Confesso não conhecer nem a peça e nem o próprio filme, mas muito por conta da aparente bela atuação do Owen, procurarei conferir. A propósito: belo texto, cara. Creio que seja um filme com bastante pegada emocional. E é muito bacana ver até a participação do McKellen!

Abraço!

Cleiton Vieira disse...

A perseguição contra todos àqueles que não pertenciam nem mereciam pertencer a raça ariana aos olhos dos Nazistas foi realmente um dos maiores crimes contra a raça humana.

Esse filme é bem pontual. Ele mostra muito no começo a vida niilista que milhares de LGBTs estão inseridos, iludidos em se esconder nos guetos e buscar apenas o prazer sexual. É preciso evocar a carga política de cada cidadão, e trazer-se para a luz do dia, só assim serão aceitos, e melhor, acabar-se-à com a imagem de algo ruim na sociedade judaico-cristã que a gente está petrificado.

Depois o filme mostra o a perseguição em si, os campos de concentração, e cara, que fantástico a cena do sexo sem nenhum toque entre o Clive e o outro lá. Atores de muito talento.

Tem outro filme também que trata da perseguição contra gays na Alemanha nazista, muito bom, o Amor em tempos de Guerra. O foco não é tanto dos gays no campo de concentração, é mais a parte da convivência mais simples e romântica entre um casal de homens que envolve a família e os amigos no sofrimento da perseguição.

To virando fã do blog. rs

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