Confissões de Adolescentes

Clube dos Cinco é o ápice da simbologia dos anos 80, clássico febril imbatível. O ícone culturalmente pop cinematográfico, disseca o universo da amplitude juvenil sexualizada. São personificados cinco estereótipos: O popular, a mimada patricinha, o nerd, o rebelde e a desajustada. Por não se enquadrarem socialmente na escola, todos são detidos em pleno sábado. O confinamento gera uma relação de pura convivência, eis o embate da relação de diversos indivíduos socialmente antagônicos. Diante das diferenças, laços afetivos são criados. Presos na biblioteca, todos são obrigados a desenvolver uma redação cujo tema é: o que achamos que somos? O filme conceitua o questionamento reflexivo. O conflito: enquanto cada um passa a interagir com o outro, gradualmente as máscaras caem e as identidades são comprovadas. Com aspecto de rebeldia transgressora juvenil, sexualidade debatida e deliciosamente afiado no time interpretativo e roteiro adequado de John Hughes - que também dirige - é o filme adolescente definitivo. Propõe uma reflexão sobre os desafios sociais e sentimentais da puberdade, da transformação do estado jovem para fase adulta. A imaturidade contrapõe-se com a obtenção da maturidade? O roteiro consciente, inteligente e liberal, tem a linguagem concisa, pois mostra como agem, pensam e falam os teenagers americanos. Reflexão mundial? Um espelho da sociedade?

Os jovens demonstram as inseguranças, os medos e fragilidades. Há abordagens, dentro da personificação dos cinco adolescentes, de assuntos como carência afetiva, violência doméstica, tabus da virgindade, drogas e intolerâncias familiares - obviamente, são ferramentas que provocam aproximação, reconhecimento e emoção do espectador com os personagens. É como se cada um fosse de uma casta diferente, praticamente parte de uma cartilha de comportamento que define sua popularidade ou ostracismo. Funciona como uma espécie de divã coletivo, onde um serve de psicólogo para o outro, o encarceramento propõe uma reflexão em conjunto, a indagação é coletiva - um confronta emotivamente o outro, vão se unindo numa cúpula cujo principal objetivo é exorcizar os problemas pessoais e coletivos. Como aceitar as diferenças alheias e aceitar as próprias angústias existenciais? Como viver imerso nas carências sentimentais? O grande ápice é quando as máscaras de cada um são retiradas, os ressentimentos são revelados e a emotividade passional verbalizada. Cada um tem seu momento de se expor.

Com as adversidades e as sentimentalidades aproximadas, o tédio e a repressão são fatos a serem contornados. Entre eles, no elo coletivo de exposição de fragilidades e traumas socio-psicológicos, todos observam que a vida é algo a ser questionada - e também refletida. O roteiro tende a propor essa reflexão, externa uma linguagem da juventude perante a sociedade altamente rigorosa. Como um jovem tem voz ativa perante um sistema social tão mecânico? A falta de base familiar, muitas vezes, proporciona que o jovem se sinta deslocado integralmente. Sem sentimento no lar - rebeldia popular? Todos ali buscam a afetividade. É notório: todo e qualquer adolescente tem emaranhado de problemas íntimos para resolver, especialmente no que diz respeito ao convívio em sociedade.

O filme tem diálogos intimistas e efervescentes. Emilio Estevez, Anthony Michael Hall e Judd Nelson são as concepções da testosterona interpretativa, a feminilidade é determinada pelas atuações de Molly Ringwald e Ally Sheedy - intitulados de the brad pack, considerados os promissores de Hollywood na década de 80. Eis os cinco atores que personificaram os personagens intensamente realistas. A película concebe uma reflexão de como nos importamos com nossas aparências, como necessitamos ser identificado com este ou aquele grupo para se sentir seguro, acolhido e aceito. E a trilha sonora bem climatizada, incluindo a Don't forget about me do Simple Minds, exclusivamente feita para o filme. Um exemplo de filme deliciosamente necessário.

28 opinaram | apimente também!:

Rodrigo Mendes disse...

John Hughes faleceu ano passado. Lastimável. Seus roteiros são referências para mim.

'Clube Dos Cinco' é inteligente e bem realizado. Pode-se dizer que seus filmes são obras primas teenagers. O melhor que entendeu o adolescente dos anos 80

Mas prefiro a comédia ' Curtindo A Vida Adoidado' com o Mathew Broderick...é Hughes e seus filmes de Sessão da Tarde...bela lembrança!

Abs!

@philipsouza disse...

Otimos filmes hoje em dia é muito dificil ser como os de antigamente...

abraços

Madame Lumière disse...

Clube dos Cinco...saudades deste divã teen. Acho que na maturidade, encontro-me com vontade de voltar à adolescência na emergência de tratar alguns recalques que poderiam ter sido resolvidos se eu tivesse tido o privilégio de ter um Clube dos Cinco, uma terapia assim gratuita (rs)... Te juro que o clube era meu sonho de consumo entrando na década de 90.
Abraço,
Madame Lumière

Paulo [ALT] disse...

Lembra do susto que você teve quando leu do A Luz é Para Todos? Opa, tive a mesma reação quando abri o seu aqui agora. Já comentou tanto dele comigo e eu ainda não vi! Mesmo não vendo só pelo pôster já me traz um ar de nostalgia raro. Isso é inigualável, né? Bom, "John Hughes" por ele mesmo já diz tudo. Adorei ler a sinopse e me lembra bem de um episódio do antigo Barrados no Baile quando eles ficam presos na biblioteca também, só que a convicência não é lá um beleza e a lavagem de roupa suja "breaks lose", rs.

Mas falando sério, adorei que você colocou um outro gênero, por assim dizer, de filme por aqui. Soube falar bem do conteúdo dele, mesmo eu não tendo assistido. E isso é ruim porque não tenho como comentar a não ser do seu texto, rsrs. Me sinto perto das suas idéias quando leio, rs. Se eu acabar comentando de todas as reflexões que você faz aqui acabo com outro mini-post de comentário. Não vou dizer que você me animou pra assistir pq já tinha feito isso antes. E com suas reflexões aqui em torno dos assuntos discutidos, ainda que a gente saiba e tenha visto em outros já, mais ainda. Aquele meio rebelde da luva ali me lembrou o Matthew Fox na série Party of Five.

Um exemplo de post deliciosamente necessário ^^
Abraço amigo!

Arthur Alter L. disse...

A magnitude desse filme, pra mim está no fato de que cada vez que eu me propoponho a assistí-lo, o que ja fiz algumas vezes, por necessidade acadêmica. Me deparo com novos entendimentos, novas expressões. Pode ser antigo, mas a contemporâneidade dos temas tratados o atualiza, sistematicamente.
Perfeita abordagem.
Abraço.

Paulo Braccini disse...

Feliz 2010 querido, e continue assim com seus posts inteligentes e bem contextualizados.

Queridos amigos!
Meu Blog, depois de participar como Destaque na semana de 03/12/2009 na Gazeta dos Blogueiros, foi indicado ao prêmio THE BEST GB. O processo de votação já iniciou e vai até o dia 13/01/2010. Conto com o apoio dos amigos nesta empreitada. É só acessar o blog no link http://paulobraccini-filosofo.blogspot.com/, clicar no Selo Dourado no “sidebar” ao lado que voce será direcionado ao site da Gazeta dos Blogueiros, lá é só marcar o “ENFIM, É O QUE TEM PRA HOJE...” e clicar em VOTE.
Obrigado amigos,
Paulo Braccini

Dani disse...

Nossa tinha me esquecido que fiz parte dessa época....oh era muito bommmm....Gostei de lembrar disso...beijinhos no cuore....

Heitor Cardoso disse...

Pois bem, eis que aqui estou novamente. Estou como seguidor já, e agradeço os elogios. Queria ter mais tempo pra poder ler com calma e fazer um comentário no seu ultimo post (fico devendo), mas sabe como é a vida no trabalho. Mas prometo que volto!

Deixo um abraço.

Continuemos...

Marcelo A. disse...

John Hughes... quantas tardes embaladas por seus filmes! Saudades boas de um tempo que não volta mais!

E a dona Molly, musa da minha geração?!

Nossa, Clube dos Cinco é um clássico! Você sabia que pensaram em fazer uma continuação do filme, dez anos depois?

Ah, valeu pelo comentário lá no "Diz"!

Abração!

Gilson disse...

Cara, obrigado pelo comentário lá no Blog, espero vê-lo sempre por lá, seus comentários são sempre bem vindos. Espero que em 2010 possamos ter tantos posts de qualidade quanto tivemos em 2009 aqui no Apimentário. Seu Blog é para mim uma imersão de cultura no mundo dos filmes.

Feliz 2010 para tí também.

Eri Jr. disse...

Apesar de ter nascido em 94, adoro esses filmes de 80!! Mesmo que tenho assistido só aqueles que passaram na Sessão da Tarde, como citou o colega aí de cima, nota-se que a maioria dos filmes tinham como temática a adolescência!

Abraço,
Eri Jr.

Mattheus Rocha disse...

Oi, Cristiano. Já sigo o 'Apimentário' há algum tempo e é uma honra ter sua persença no meu Blog.

Quanto ao John Hughes, acho seu trabalho muito interessante. Meu preferido é 'Curtindo a vida adoidado'. O clássico Save Ferris deu origem ao nome de uma ótima banda de ska.

Abraços.

ERICK MOURA disse...

Caro amigo(a), hoje venho dar-lhe a notícia de que o circo irá voltar dia 11/01/10.
Junto com o blog, voltarei a aparecer mais por aqui comentando nos textos.
Aguardo sua presença no dia da volta.
Abraço.

ERICK MOURA

Gema disse...

Excelente texto, gostei mt de o ler.
Este filme é realmente mt bom e aconselho atodos que o vejam se ainda não o fizeram.
Bjs

Júnia L. disse...

Putz, o filme da minha adolescencia...
Esse filme simplesmente foi um marco, mostrando uma história de adolescentes sem exageros e apelações se tornando cult a ponto de passar a evidenciar Hughes, um nome que a partir de então passaria a ser acompanhado de perto e que conseqüentemente em seguida faria Curtindo a Vida Adoidado e mais tarde, já na década de 90 "Esqueceram de Mim".
“Clube dos Cinco” é um filme que aposta mais em diálogos inteligentes que ação, uma trilha sonora especial com o clássico “Don’t You Forget About Me “ do Simple Mids composta exclusivamente para o filme.
O ponto chave da história é a relação que esses jovens irão estabelecer passando um dia juntos e os dilemas que cada um carrega dentro de si onde verdades serão reveladas, sentimentos verbalizados e cada um terá sua vez de brilhar.
A cena onde os jovens estão sentados no chão em circulo e que acabam por revelar o motivo de suas detençoes não tinha falas no roteiro e o diretor autorizou os atores que falasse o que quisessem.

Comentei sobre ele no meu antigo blog...

Reinaldo Glioche disse...

Belo texto Cris. Esse filme realmente marcou época. Em muito devido a excepcional trilha sonora, como vc bem destacou. ABS

Rafa Cruz disse...

Pela descrição achei bem interessante, com certeza está na lista dos filmes que pretendo assistir em breve. O que escreveu deixa o leitor com água na boca, uma vontade de conferir essa verdadeira babel de personalidades estereotipadas. Ah, e valeu pelo comentário lá no meu blog, depois de você, um cara que escreve tão bem, elogiar ele acho que não durmo hoje =D

Abraço!
Ah, está sujeito a parceira? Se estiver, me manda um recado/e-mail. Mesmo se não aceitar seu blog constará no meu hall de links, vale muito.

Cleber Eldridge disse...

Hughes é um mestre, e este é um dos seus melhores filmes, um eterno clássico adolescente! ETERNO!

Jacque disse...

Olá! Adorei o blog! Já tô seguindo! Gostei muito do texto sobre o filme The Dreamers, adoro esse filme. Vou ver o restante! Adoro filmes antigos. Realmente seu blog é muito bom. Conheça o Poética, será um prazer tê-lo por lá.

Um abraço!

Marcos Eduardo disse...

Cris, buenas noches, darling!

Vejo mais uma semelhança entre os nossos gostos: esse filme realmente possui a essencia da juventude dos anos 80 e 90. Hoje, eles acham o maximo ver um vampiro sem quimica alguma com a sua companheira, sem tempero algum e voce me fez reviver a matine (olha que chique!) da danceteria CONTRA MÃO, no tatuapé. Voce chegou a frequentar o lugar?! Lembro-me que a sessão encerrava-se justamente com "Don't you forget about me". FOI TUDO OURO; OURO PURO!!!

Abraços.

intratecal disse...

esse é um clássico dos anos 80... do tipo que não dá pra se cansar de assistir.

Mandy disse...

Excelente. Amo esse filme, revolucionário!

Renan Canuto disse...

Cristiano, obrigado pelo elogio. Gostei do seu blog também. Estou te seguindo. Abraços.

www.renan-canuto.blogspot.com

Vanderson disse...

naum conhecia esse filme só o clássico "curtindo a vida adoidado" mas vou rpocurar sim pra assistir!!
muito bom seu post, sua forma de escrever é maravilhosa, li em poucos instantes e nem percebi!!
abraçooo
e seguindo vc tb!!!,
voltarei mais vezes!!

M. disse...

Oi Cristiano,
Seja bem-vindo á minha Vida Urbana =)

Man... adorei o texto sobre o filme. Adoro filmes com histórias densas assim, excelente indicação.

Um abraço!

Wallace Andrioli Guedes disse...

Do Hughes eu só vi CURTINDO A VIDA ADOIDADO e, confesso, não acho a obra-prima que muitos acham...
Depois do seu texto, no entanto, me interessei nesse O CLUBE DOS CINCO. Já está na minha lista...

Clenio disse...

Quem foi adolescente e nunca assistiu a "Clube dos cinco" não foi adolescente de verdade. Teu texto diz tudo sobre a obra-prima de John Hughes (que saudade de filmes assim... ainda bem que fui adolescente na época certa).

ifhnisdnfidsnfiudfsn disse...

eu já prefiro mulher nota 1000...é meu filme preferido do Hughes!

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