Homossexualidade Curável?

Não devemos culpar os outros, a culpa reside em nós mesmos. Nada que mereça a salvação é fácil... E eis que o filme Salva me demonstra a premissa da redenção. O foco é na trajetória de Mark, um drogado descuidado com a vida, perdidamente imaturo, abertamente gay e altamente promíscuo. Sua vida é firmada no condicionamento do sexo sem limites - fácil e desprovido de proximidades sentimentais. Tudo é sem sentido, breve, descabido. Sua fuga desesperada por sexo fácil é conseqüente do vazio de sua alma, então ele tem que preencher de alguma maneira. Mark vive de transas furtivas com garotos mais novos, malhados e seu cotidiano é beirado a muito sexo casual. Sexo e drogas pesadas. A catarse ocorre: após uma tarde de sexo com um rapaz, ele tem uma overdose. O irmão, impulsivamente, decide interná-lo numa instituição cristã que promete em 12 passos transformar o jovem gay em hétero. A Casa Gênese seria uma espécie de purificação sexual? Há absurdo maior? O programa de recuperação cristã tem o objetivo de denominar-se especializada em fraquezas sexuais: os pais internam os filhos gays e lá buscam, dentro da doutrina religiosa, um ambiente que tem como intuito "curar" os jovens dessa "doença". Mark entra nessa adequação com muita violência: tem comportamentos de estresse, péssimos modos de educação, é intransigente e sempre está exaltado. Seus modos rústicos e vocabulários de baixo calão (xinga o tempo todo) incomoda a dona da instituição, mas ela parece disposta a lutar pela sua reabilitação. O ser humano pode aprender a direcionar seus desejos? Como canalizar seus impulsos sexuais para outros contextos?

Na instituição, os homossexuais são "reeducados" a canalizar seus ímpetos sexuais ao idealismo da heterossexualidade. O absurdo: aprendem a driblar com suas vontades, fazendo com que acreditem que podem sentir algo ao sexo oposto. Os aprendem que por serem gays estão longe do princípio da imagem de Deus e, conseqüentemente, são imorais e impuros. Portanto, crêem na transformação: livrando-se da homossexualidade, garantem a salvação. A reparação faz parte da purificação: livrando-se do "fator gay", livram-se da culpa e do peso de viver uma vida condenada ao inferno. A instituição ativa, no psicológico dos internos, que é necessário se auto-avaliar, promover essa limpeza sexual. E aceitam como forma de serem reintegrados na sociedade, novamente. Sem vícios, sem medos: ou seja, autônomos em confiança e com uma nova personalidade sexual.

O filme estuda as relações humanas com muita sensibilidade, cuidado e aprofundamento narrativo onde os personagens definem o mosaico de sentimentalidade. Os garotos em busca da "reabilitação para ser curado de sua homossexualidade" reprimem-se a tal ponto de sofrerem diante da própria condição sexual. A dor de amar alguém do mesmo sexo, o desejo árduo que machuca e fere o âmago. O próprio Mark sente o coração destroçado já de tantos calos de vida, repressão e auto-flagelo: o amor é cruel, mas a condição sexual, se não bem aceita, torna-se puro martírio. E acontece o inevitável: Mark apaixona-se por um dos internos, Scott. O amor não é algo fácil, às vezes o ser humano se sacrifica por questões banais. No aprendizado do embalo do sentimento do amor: os erros, as mágoas, as imperfeições e os desejos se misturam. Ainda que a instituição não seja totalmente repressora, dita regras e tem um carinho evidente no tratamento dos internos, mas o absurdo consiste na forma de avaliar a homossexualidade como algo inaceitável em vida. A religião acaba por impor regras repressivas, ainda que não objetivamente.

Os internos sofrem a dor de não extravasarem o desejo, tendo o calor do corpo em chamas de tesão, mas sem pôr em ebulição o que sente. Mark continua desejando ardentemente seu amigo Scott, e ele corresponde a esse desejo sentimental. O conflito acentua-se: como viver este sentimento que insiste em transformar tudo? Mark é podado, acaba por se sentir recluso e descontente. A religiosidade enfatiza uma relação de submissão, auto-punição: amar um homem? Jamais. Enquanto vivencia o próprio amadurecimento nele mesmo, passa a se questionar e a dúvida persegue: o que é felicidade, afinal? Viver sob os "princípios de Deus" ou largar tudo pelo amor ardente e fugir com Scott? O que prevalece nessas horas? Eis os dilemas. O amor está acima de tudo? A intensa relação de Mark com Scott confronta a própria dona da instituição, confronta a própria verdade neles mesmos.

O filme tem uma direção objetiva sincera de Robert Cary, auxiliada pela montagem crua, bem seca e com uma fotografia que prioriza closes das expressões dos atores, bem como da paisagem da instituição de reabilitação. A trilha sonora de Jeff Cardoni é serena, discreta. O interessante do roteiro de Robert Desiderio é intercalar momentos sem nenhum diálogos e outros bastante intensificados de falas, gestos dinâmicos dos atores. O ator Chad Allen conduz seu Mark com muita vibração interpretativa, além da singela atuação de Robert Grant como Scott. Um bom recurso e grande sacada da linguagem do roteiro é utilizar depoimentos dos personagens, ao decorrer do desenvolvimento narrativo, contextualizando o psicológico íntimo e também um pouco da vida de cada um. Espécie de confessionário dos personagens. O filme tende a ser um alerta: todos os indivíduos merecem ser convictos sexualmente, lutar por direitos iguais. A religiosidade nada tem a ver com o ser ou não gay. Um filme sensivelmente reflexivo.

Save Me (EUA, 2007)
Direção de Robert Cary
Roteiro de Robert Desiderio
Com Chad Allen, Robert Gant, Judith Light, Stephen Lang

25 opinaram | apimente também!:

Antônio Moura disse...

Denso. O filme parece tratar de várias questões ao mesmo tempo, e todas elas muito profundas. Sexualidade, drogas, vícios, promiscuidade, religião. Barra pesada.
Abração!

Mirella Santos disse...

Na verdade, Tenso. Sendo que pra mudar algo numa pessoa homossexual tem que mudar no seu biológico pq já está comprovado que não uma opção da pessoa ela simplesmnetenasceu assim, porém, não podemos encarar feito uma doença. Interssante.

Ei já respondi seu comentário no blog ,não leve nada pro lado pessoal ok, só gosto da saga mesmo e sou cabeça dura... hehehe. Abraços

Felipe Guimarães disse...

Me chamou muito a atenção! Quero ver urgentemente!

Serginho Tavares disse...

detestei esse filme!

Paulo [ALT] disse...

Cris,

Pra começar eu não consigo dizer nada mais do que pensar ser ridículo a associação de ser gay a uso de drogas e promiscuidade. Digo isso pq uma coisa puxa a outra no filme. Não, =/ , nunca assisti e nunca nem tinha ouvido falar sobre. Tava pensando numa forma de dizer isso sem ser repetitivo com uma coisa meio óbvia pros que compartilham da opinião, mas não tem jeito. E outra, conferir o absurdo que é uma instituição pra isso. Tudo bem que é um filme feito pra se debater sobre, que seja... mas é de um absurdo ainda mais colossal quando a gente se depara com isso na realidade. E pior, nos dias atuais, seja visando o lucro obtido pela idéia ou... acreditando mesmo nisso [apoiando-se, ainda, pelo lado religioso]. É uma escada de absurdos, até eu perco os degraus, percebeu né?

Achei o título legal. Talvez um pouco mexicano haha. A imagem é muito legal né? Bem montada. O cara da publicidade do filme [se é que não existe essa própria cena dentro do longa] teve uma sacada excelente. Nesse sentido... que coisa meio clockwork orange neh naun????

Seu post tá perfeitinho, tô achando meu comentário meio recluso, haha, mas não quero demorar muito pra comentar embora já tenha me atrasado aqui nisso, hunfff...

Tem ele pelos torrents da vida? Deve ter em dvd ai, assistiu depois de passar no Mc Donalds ;] haha
Abraçãooo meu Amigo ^^

Rodrigo Mendes disse...

Cris,
faço coro ao Paulo quanto aos rótulos. Sei lá, nao me agrada mais ver filmes tensos com temáticas gays.

Eu não sou louco e sou gay, rs!
Esse lance aí da Instituição,,affff!!!

O filme pode ser interessante...é mesmo? Confio em vc!!!

Belo texto,
mas queria ver um filme gay sem esteriótipos. Pq ficar nesta tecla sempre? Mas tbm não precisa ser um comercial de margarina como o péssimo DO COMEÇO AO FIM (indo ao incesto o que é terrível).

Um filme como MÁ EDUCAÇÃO pra mim já bastou.

Percebe? Queria ver uma comédia romântica GAY suave, rs! Sem ousadias!

Abs!

Leandro blogger disse...

Achei muito amoral e um tanto equivoco em respeito ao assunto
Particularmente uma dessimpatia tremenda,
Mais de qualquer forma não posso dizer que não seja verídico
Vale apena até por acabamos por evitar essas armadilhas.

Fabiano disse...

Interessante!
Vou buscar esse filme pra assistir.

A reflexão sobre seguir a religião ou a felicidade é interessante. Afinal, ser feliz é ser feliz? É seguir os preceitos religiosos? Ou é seguir as imposições da família?

Achei interessante a temática abordada no filme, bem extensa, pelo visto.

Sempre que puder dou uma passada por aqui!

Rafael Pinheiro disse...

conheço bem a realiadade das igrejas que tentar curar gays.É uma tristeza, sem comentários.
quanto à promiscuidade e as drogas, é claro que não deixa de ser clichê, no entanto reflete muito bem a realidade dos embates que nos gays temos entre a vida, o sexo e o amor.Quem for honesto irá concordar que o sexo, o gozo e o amor é uma questão a ser resolvida por todos nós, e nisso, gays e héteros. vou ver o filme.

rafael pinheiro.

Drigo disse...

com esse tema, podemos conversar horas e nada se resolverá, por parte dos religiosos claro.
um dia poderemos ver essa qstao resolvida.

abçs...

Daniel disse...

Um tanto preconceituoso, mas um tanto interessante, fiquei curioso em ver esses metodos, mesmo que seja apenas um filme.

Não acho que devamos tratar escolhas sexuais como doença. E se não é doença não há cura para "esse mal".

Mas acho que uma vida mais regrada é melhor, pois quanto mais diferente da socieda, mais sofremos, aí cabe a cada um escolher que tipo de vida levar. De preferência aquela que mais agrada.

abs

Paulo Braccini disse...

Nunca tinha ouvido falar deste filme, mas pela sua indicação e pelas referências de direção, roteiro e interpretação dos atores vou tentar assistir ... esta questão, de certa forma, já foi muito bem explorada em Laranja Mecânica ... mas enfim ...

tenho estado sempre por aqui [até pq vc está linkado], mesmo que anônimamente ... admiro muito sua percepção crítica sobre a sétima arte ...

bjux

;-)

Mattheus Rocha disse...

O cartaz é corajoso !!!

Ainda não vi este filme, mas me pareceu bem interessante. O choque entre o considerado "subversivo" e a tradição religiosa sempre rende boas tramas.

Abraços !!!

Bruno disse...

Parece ser interessante. Será que tem pra baixar no transveados.com?


bjoo

EFS*** disse...

Ja assisti, não gostei! :/
a abordagem não é lá estas coisas.
Mas que dá uma puta raiva desses homofóbicos fundamentalistas, isso dá!

J,J disse...

Não conheço, rs!

Kahlil Affonso disse...

Nunca ouvi falar deste filme, mas confesso que fiquei mais do que curioso para vê-lo. A história parece ser bem polêmica e recheada de boas atuações.

http://cinemaemdvd.blogspot.com/

Hana disse...

Oizinho, com licensa vim visitar seu blog, vou passar mais vezes aqui posso? venha me visitar quando quizer será bem vindo.
com imenso carinho
Hana

André Noronha disse...

interessante. eu já pensei muito nisso. nesse tema. tenho opiniões controversas.

da uma olhada aqui http://andre-noronha.blogspot.com/


ah eu acho que eu vi uma frase sua sem sujeito. ;)

Hugo disse...

Não conhecia o filme, mas a história é bem interessante e polêmica.

Abraço

Renato Hemesath disse...

Eu gosto muito deste filme, já lhe falei sobre.
Eu acredito que tornou-se bastante habitual alguns trabalhos se pautarem nesta idéia de esteriótipo e assim induzir algumas pessoas a concepção de que 'as coisas seguem o mesmo trajeto'. Enfim, apesar disso eu acredito que o roteiro esclarece o próprio sofrimento psíquico daqueles indivíduos e o quanto eles se alienavam por distanciarem do que de fato, gostariam de ser.

Tratando-se do Gant, vale a pena ver inúmeras vezes.

abraços.

railer disse...

como sempre, muito bom seu texto, cristiano. conheço muitos gays que sofrem com essa questão de quererem servir a deus e não serem aceitos nas igrejas. aliás, no blog antigo eu falei da sara em, uma cantora lésbica cujo primeiro single falava da sua vontade de se sentir incluída na religião.

T I N I N disse...

Uauuuuuuuuuuu
Fiquei super afim de assistir...
Pelo que entendi o principal objetivo do filme é retratar as consequencias de se tentar bloquear a sexualidade natural de cada pessoa...O fato de reunir no mesmo filme, drogas, promiscuidade , homossexualismo , é mera intenção do autor de tornar a estoria mais impactante.
O cartaz esta perfeito ao que se refere o filme.
A sinopse descrita não poderia estar melhor!
Só me resta assistir.
Beijo
Adorei o Blog!

Moacir disse...

Adorei esse filme também. Robert Grant e Chad Allen dão show. Queria mais atores/produtores como eles.

Poder se ver na tela é muito bom, não? Essa identificação é rara ainda e a gente consegue fazer quase uma catarse através da história dos outros.

gabriel disse...

que cartaz foda, me identifiquei no filme, ha. e seu texto só me deixou ainda com mais vontade de vê-lo, não conhecia. já entrou na minha lista.
abraços (:

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