Desejo e preconceito

Quem é que deve dizer o que é pecado aos olhos de Deus? Do amor nada pode ser recriminado, abstém o senso de julgamento. Amar é estar condicionado à irrefreável mordaça da passionalidade, o emocional que beira ao clamor do sexo e do sentimento pulsante. É possível deter o desejo? Cruel é ter que abdicar do sentimento em função de convenções rigorosas de uma sociedade traiçoeira. A Letra Escarlate traz um foco de romance psicológico histórico, trágico, predestinado ao impossível. Em 1666, Hester Prynne (Demi Moore), chega à localidade de Massachussetts com a incumbência de conceber um lar, antes que o marido chegue - coube a ela a tarefa de organizar todo o necessário para a estadia do casal naquele local. Contudo, ao se integrar socialmente no local, o destino arquiteta a catarse: Prynne se apaixona irremediavelmente pelo reverendo da comunidade, Arthur Dimmesdale (Gary Oldman). Como atenuar o que sentem? O que há no amor que determina um impulso imediato no coração de um ser humano? Amar pode trazer árduas consequências? Apaixonados, ávidos de tesão um pelo o outro, eles tentam segredar o que vivenciam. O navio que trazia seu marido, Dr. Prynne (Robert Duvall), sofre um ataque dos índios algonquinos, ocasião em que o médico é seqüestrado. E ele é tido como morto. Será o momento de trazer à tona todos os sentires da carne e do coração? A intensa adaptação do romance de Nathaniel Hawthorne pelo roteirista Douglas Day Stewart concebe toda a essência do livro.

O quente argumento foca neste desejo e sentimento incondicional que ambos os personagens sentem. Mas, o sofrimento ocorre: após tanto reprimir o que sente, Prynne transa com o reverendo e ambos sentem-se atormentados pelo ato de adultério. Impossibilitados de assumirem, socialmente, que estão juntos - segundo os princípios religiosos da época, seria necessário sete anos após o falecimento do marido, para ela poder estar com alguém novamente - sentem-se aflitos. Quão doloroso é amar e não poder viver tudo de uma só vez? E ambos não conseguem se distanciarem sem sentir o sexo clamando, do amor nada se escapa. E a crueldade torna-se ápice: Prynne fica grávida e é descoberta por todos. Condenada pela comunidade, recusa-se a dizer que o reverendo é o pai da criança. Então, é presa e fica marginalizada socialmente. É obrigada a portar um "A" de adúltera, bordado em cores vermelhas, na suas vestes, como símbolo expresso de sua vergonha perante a sociedade que a condena vigorosamente. Como estabelecer o senso da justiça perante uma loucura generalizada? Prynne enfrentou todos por amar o homem que escolheu, defendeu sua liberdade de culto sem temer perseguições, quebrou todos os rótulos banais. Convicta, liberal e sincera. E ainda foi taxada de herege, moralmente massacrada por ter promovido reuniões onde os conteúdos das conversas eram de cunho sexual, sem censura. Para ela, a própria sociedade hipócrita que a condenou por fornicação e adultério se tornou indigna, vil e não merecedora de respeito algum. E há o medo de ser levada à forca.

O filme pauta o extremismo religioso, a falsa moralidade e o exagerado puritanismo. É também um estudo sobre paixão avassaladora, do desejo que não cessa. Prynne representa a mulher apaixonada que contesta todos - o que é pecado, afinal? Deus pune quem peca? Pecado é amar? Até que ponto o ser humano pode ir contra a sociedade que insiste em punir o sexo? Ela é alvo dessa crueldade de preconceitos, tabus e padronizações. Ao passo que mais se nega a dizer o nome do pai da criança (ainda que Dimmesdale tente fazê-la acreditar que é necessário revelá-lo a todos), mais é colocada à margem social. Decerto, é uma mulher íntegra e forte que desafiou uma sociedade em prol de suas convicções. Prynne não se importava em esconder o colo, nem mesmo abaixava a cabeça perante qualquer homem - instruída, leitora de livros, argumenta seus ideais sem temer e enfrentava qualquer que tentasse impor-lhe regras descabidas. E assim, chocava a todos? Através dessas atitudes proporcionava repúdio e escandalizava todos os moradores da pequena cidade - ela era alvo de reprovação. As mulheres dessa época não só aceitavam as condições de sujeição a que estavam sendo submetidas, como procuravam manter essa relação, discriminando qualquer outro tipo de comportamento. Os homens pensavam que uma mulher liberada que chocava a sociedade por pensar por conta própria, só poderia ser alguém sem respeito, vista apenas como objeto de prazer sexual. Já Demmisdale, um exemplo de homem em crise com a própria identidade religiosa: será possível fugir dos comandos divinos para dar vazão à carne aflita? O amor mesclado ao desejo opõe-se ao senso da educação moral da religião? Mas, ele abdica de tudo para vivenciar a devoção de seu sentimento à amada. A sexualidade permeia e é grande parte do vigor do impulso dos dois.

O diretor Roland Joffé consegue focar neste desejo, martírio e desespero dos dois amantes - há uma química invejável entre Demi Moore e Gary Oldman. Ela, uma mulher que jamais perde a força - concebe toda a luta, coerência e convicção da personagem; ele, no desespero diante de seu conflito interno. Atuações bastante intensas, convincentes. A cena que Prynne vê Demmesdale, pela primeira vez, tem a sutileza erótica - ela o observa banhar-se nú num rio, o tesão ali é evidente. A trilha sonora emocional de John Barry pontua os momentos mais incisivos do casal, extremo bom gosto. Há uma fotografia discreta, mas belíssima de Alex Thomson que valoriza tons de vermelho para simbolizar a paixão que determina toda a narração. Trama instigante, trincada e que exibe, dentro da ficção dramática, contextos reais de um momento histórico. É tocante observar o quão severo foram os castigos aplicados à mulheres que cometiam adultério naquela época. Nem mesmo seu sofrimento seria capaz de inocentá-la visto que todos não se contentavam em levá-la à praça pública, com humilhação e hostilidade. É um estudo sobre a discriminação da mulher e como uma conseguiu, ainda que dentro da configuração do torpor, exercer sua voz e rompeu paradigmas. Percebe-se como o julgamento social é algo cruel, vergonhoso e incabível. E o filme ainda tem espaço para traçar um entrave entre a religião, moralidade e políticas humanas. E intolerância de homens brancos com índios. O moralismo é prejudicial? Exuberante filme de quente abordagem contundente.

The Scarlet Letter (EUA, 1995)
Direção de Nathaniel Hawthorne
Roteiro de Douglas Day Stewart, baseado no livro de Nathaniel Hawthorne
Com Demi Moore, Gary Oldman, Robert Duvall, Lisa Joliffe-Andoh, Edward Hardwicke

24 opinaram | apimente também!:

Franck disse...

Excelente filme, e, sua síntese melhor ainda, capta toda a trama! Tbém recomendo! Um bom domingo!
PS: Vc já assistiu 'Do começo ao fim'? Filme brasileiro que é uma história linda de amor entre dois meio-irmãos...

Hugo disse...

Na época o filme recebeu críticas ruins, principalmente nos EUA, talvez por ser baseado num livro extremamente famoso por lá. Algo como pegar um livro clássico de nossa literatura e adaptar para o cinema.

A história é o retrato de um sociedade totalmente intolerante na época e que por sinal ainda sobram farpas deste moralismo e preconceito até hoje na sociedade americana.

Abraço

Renato Tavares Mayr disse...

Ei, Cristiano. Passei aqui pra dizer como eu fui um idiota lá no blog do Luciano e... Desculpa, valeu? Eu não fiz por mal, era só uma piada(de mal gosto)...

Seu blog é excelente, você escreve muito bem... Tava pensando em voltar. Se ainda quiser papo, responde lá no meu antigo blog, na crítica de 'Lua Nova'... Se não... Desculpe por qualquer transtorno, não fiz por mal...

M. disse...

Cristiano, este é um excelente tema para reflexão. Afinal, nenhum ser humano é capaz de julgar o outro. Principalmente quando há religião no meio... Claro que esse filme é de época, e naquele período tudo era muito pior que hoje.

Esse filme é maravilhoso! Já assisti várias vezes. Sinto falta de Gary Oldman nesses papéis sedutores, ele faz muito melhor do que qualquer "gatinho" de Crepúsculo. Aliás nem devo compará-lo, Gary Oldman é sem comparações. Às vezes acho até que nas recentes produções ele é mal aproveitado. Realmente foram dois papéis dele que me marcaram bastante: esse da Letra Escarlate e o Drácula. Seu texto está perfeito, como sempre uma abordagem muito consciente e honesta. Um abraço e ótimo fim de semana.

Amanda Aouad disse...

Pronto. Esse eu vi, apesar de já ter muito tempo. Um filme forte, intenso, como você descreveu. Demi Moore carregando aquela letra no pescoço me dava uma agonia. E o final, então... E aquele piano... Pecado amar? Não, não deve ser nunca.

bjs

bruno knott disse...

Sempre quis assistir a este filme e até hoje não o fiz.

Pelo jeito ele é bem mais rico do que eu pensei, possibilitando a discussão de vários temas espinhosos.

Sorte em que vivemos num período que permite a liberdade de expressão, ainda que exista MUITA gente com essa mentalidade pra lá de medieval.

Abraços.

Renato Orlandi disse...

Nossa, que polêmico, fiquei curioso, deve fazer duras críticas também ao sistema religioso será? Gostei dos tópicos que discutiu no início, realmente quem pode dizer o que é pecado? Abraçoo! :D

Guilherme Sakuma disse...

Adoro... Gary Oldman é foda... Bonito, pega geral.

TH disse...

O roteiro é perfeito e a quimica entre Old e Demi foi de fazer babar. Eu lembro das críticas pouco lisonjeiras, mas, de boa: tem muitos crí-crí-ticos que só querem perturbar....rsrs
Grande filme, grande livro e resultado primoroso!

Antonio de Castro disse...

o texto que vc fez para o filme é tão bom qt o próprio filme.

conseguiu refletir td!

precisava comentar ja q esse é um dos meus filmes favoritos.

dez

Rodrigo Mendes disse...

Cris,

muito apimentado aquele colo da Demi (puro desejo). E a moralidade exacerbada é prejudicial a saúde(estúpido preconceito). Rs!

Este não é o meu filme favorito com a Demi (O Primeiro Ano Do Resto de Nossas Vidas, Ghost [meus favoritos]), mas ela está melhor nesta época ( e ainda com o ótimo Gary Oldman) do que hoje em dia após operação nasal, rs!

Abs,
Rodrigo

Luis Galvão disse...

Humn, ótima crítica para um filme que levanta realmente muitas questões difíceis. Eu gosto bastante também.

Kamila disse...

Você fechou o pacote logo no primeiro parágrafo de seu texto. Quando a gente se apaixona, a verdade é que não se contesta isso. A gente não tem o que contestar, na verdade. Temos mesmo que nos entregar.

Marconi disse...

Ótimo texto. capta a essência do filme.

cleber eldridge disse...

Dear Lord! Gostaria de saber de onde você tira determinados filmes, hein!?

Junnior disse...

Incrível a sua capacidade de descrever um filme despertando a nossa curiosidade. Eu acho que assisti a esse filme, mas, após ler o post, fiquei com dúvidas. Cristiano, há uma frase na sua postagem que fala em desafiar a sociedade em prol de convicções. Baseado nela, é que peço a você o favor de passar no Navve Guei para registrar a sua opinião na enquete sobre a igualdade de direitos civis a todos os cidadãos brasileiros, independentemente de orientação sexual (baseada na recente lei argentina). Se puder, o faça. Também postei algo sobre o assunto hoje.
Obrigado.

Marcos disse...

Olá Cristiano,

Sou leitor do Apimentário e sou cinéfilo de carteirinha. Eu estou mandando esse email porque estou trabalhando numa empresa que desenvolveu um portal sobre cinema - o Cinema Total (www.cinematotal.com). Um dos atrativos do site é que você cria uma página dentro do site, podendo escrever textos de blog e críticas de filmes. Então, gostaria de sugerir que você também passasse a publicar seus textos no Cinema Total - assim você também atinge o público que acessa o Cinema Total e não conhece o Apimentário.

Se você gostar do site, também peço que coloque um link para ele no Apimentário.

Se você quiser, me mande um email quando criar sua conta que eu verifico se está tudo ok.

Um abraço,

Marcos
www.cinematotal.com

Joel Martins Cavalcante disse...

Não sou cinéfilo. Mas confesso que vou acabar ficando. Tudo culpa sua, Cris, rs. Todos os filmes que você resenha me deixa com a vontade de assistir novamente, os que já vi, e de assistir imediatamente os que não conhecia até ler seu blog.
Esse filme possibilita uma reflexão interessante sobres os valores morais e religiosos e vida privada das pessoas em uma período que essas coisas eram inseparáveis.
Vou assistir. Vou recomendar a outras pessoas seu texto.

Mirella Santos disse...

Cristiano sua resenha está ótima. Eu realmente nunca havia ouvido falar nesse filme, mas o enredo é muito interessante. Adoro as atuações de Gary Oldman pra mim ele sempre tem uma cara de mal que de certa forma fascina rsrs. Bjos

Luciano Azevedo disse...

Cris,
Faz muito tempo que assisti esse filme. Lembro que assisti em VHS e não encontrei mais. Excelente análise. Abração!

pseudo-autor disse...

O filme é extraordinário. Uma pena que o diretor tenha escolhido a Demi Moore para fazer a protagonista... Ela é uma canastrona de marca maior.

Sônia Brandão disse...

Gosto de ler as suas resenhas. São ótimas para me fazer lembrar dos filmes. Com tanta coisa que a gente assiste, às vêzes fica difícil lembrar.
Li o livro e vi o filme.

Um abraço.

Edson Cacimiro disse...

Vi há muito tempo atrás esse filme ,preciso revê-lo.

Marcio Nicolau disse...

Amar, posto que é vida e ação, sempre taz consequencias.

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