Relação Casta?

Um sentimento há de ser firmado na poeticidade? O amor é um alicerce de conjunto de palavras, desejo e atos que determinam a intensidade da sensação. Às vezes, o sentimento nasce do lúdico - do desejo gradual, da cumplicidade de uma relação próxima do senso do platônico. Brilho de Uma Paixão é um exercício de sensibilidade amorosa, configura-se como dom artístico repleto de beleza narrativa. Dirigido e escrito pela emocional neozelandesa Jane Campion, adaptação da biografia Keats escrita por Andrew Motion, é um filme que foca no romance do poeta orfão John Keats (Ben Whishaw) e a jovem estilista Fanny Brawne (Abbie Cornish), em pleno terreno da Inglaterra do século XIX. A impossibilidade da relação dos dois impulsiona o enredo: John não tem perspectiva financeira, visto que não tem posses nem ambições, considera-se um fracassado e mergulha dentro de sua poesia como forma de sobrevida. Já Fanny tem opiniões determinadas, é enérgica e se mostra bastante a frente de seu tempo. A aproximação de ambos é evidente, o sentimento é consequente. Como evitar um desejo que nasce do inesperado? Inicialmente, ambos não se articulam plenamente, mas quando a garota desinibida decide aprender poesia com o poeticista - nasce ali um desejo de grande entusiasmo, afeto. Há necessidade de refrear isso? O que determina os impulsos do carinho e do coração? Nem tudo pode ser explicado, nem mesmo à alma. Um trabalho que encanta pelo domínio dos sentidos técnicos e emotivos.

É um filme que prioriza este sensível sentimento entre os dois amantes, visto que a relação de ambos não se sustenta no desespero do sexo - ambos, vivenciam, aos poucos, a atmosfera do sentimento, gradualmente - entre pequenos gestos e diálogos, atos cúmplices que denunciam o desejo que ali paira. De fato, a beleza é nesta relação romântica convencional: John e Fanny desejam-se, porém não vulgarizam o sentimento com a fúria da libido - pelo contrário, dedicam-se a externar os sentires apenas com trocas de palavras poéticas e cortejo delicado. Fanny é a típica mulher passional, que segue em busca do que almeja, ainda que se veja imersa nas dificuldades das convenções sociais que impõe regras e atenuam impulsos mais emocionais. Como uma mulher pode se livrar das limitações sociais que tanto podam suas vontades? Como estabelecer um vínculo mais denso com este poeta que tanto mexe com seu coração? O belo roteiro de Campion atinge o âmago sentimentalista por ter a percepção constante do que Fanny sente, vê e deseja - é ela a narradora dessa história de drama romântico. E é com bastante cuidado que se observa como o casal vivencia o amadurecimento da consciência da paixão: o roteiro alia-se mais da força imagética para expressar o invólucro da aproximação dos dois. Há no aprendizado amoroso dos dois um teor de conquista, aprendizado. Um sentimento poético, etéreo e até platônico. Amor casto? E o roteiro evita as frases de efeitos que tanto se sustentam os filmes do estilo para evidenciar um drama mais naturalista, tangível.

O sustento emotivo, vigor da paixão e desejo de ambos é exercido com o auxílio da arte: apaixonados, estabelecem um contato delicado - a poesia tem um papel primordial, pois é através dela que ambos justificam seus anseios românticos e estabelecem a comunicação. Entre cartas trocadas, juras de amor em versos poéticos ou mesmo quando John recita seus poemas compartilhados pelo coro de Fanny, percebe-se quão ligados estão. Seria a poética um instrumento que une dois amantes? É interessante observá-los divagando sentimentos, questões sobre existência e dúvidas dentro de seus céus cinzentos da Inglaterra. Eis o coração pulsando arte, amor e reflexão a dois? O roteiro, por ter essa linguagem convencionalista, centraliza o conflito mais na relação dos dois como também vigoriza as personalidades distintas de ambos. Nota-se em Fanny uma representação mais altiva da feminilidade, uma mulher que tenta desvencilhar-se do conservadorismo presente, há uma necessidade de expressão constante nela. Já John é o típico poeta sofrido pelas dores íntimas, pelo que absorve do mundo ao redor - e ainda quer uma musa que o inspire, papel dado à sua amada. É sensibilizado pelo que enfrenta, tende a ser até introspectivo e machuca-se por não oferecer um dote a Fanny. Há no casal o embasamento da melancolia, do desespero de amar e ser feliz, da necessidade de resistir aos empecilhos do destino. O antagonista da trama, o amigo de John, Mr. Brown (Paul Schneider), é um elemento que provoca a desarmonia no casal - por desacreditar na relação dos dois, talvez por viver sem sintonia com Fanny, ele consegue exalar infâmia e senso de asquerosidade em cena. Ele crê que o talento do amigo John esteja fadado ao desperdício com a presença da paixão, por isso enfrenta Fanny de maneira incisiva negativa.

Um trabalho que pauta o conservadorismo de uma época marcada por limitações sociais, discriminação social e rigores tradicionais - é um retrato de um amor discreto, com muita elegância e intensidade. É perceptível o dom emocional que Campion tem em conduzir os atores em cena, ainda mais no notório desempenho de Abbie Cornish como a fulgente Fanny - mulher tão confiante, forte, porém permissível aos seus desesperos sentimentais que a tornam mera figura frágil. Ben Whishaw consegue convencer como o poeta impossibilitado de expressar toda a vontade de amor, um homem sensibilizado e tocado pelo que sente. A lenta narrativa consegue valorizar uma precisa história de amor, ainda que o casal não atinja o ápice do ardor do desejo - há o foco na sensibilidade, não no desejo carnal, visto que ambos se sustentam numa relação mais filosófica poética. Ambos poderiam explodir de avassaladora paixão caso não fossem predestinados pela cruel amarra das convenções sociais. A sedução é composta de pequenos olhares de um ao outro, do aprendizado e da admiração conjunta. E Campion desencadeia seus prazeres deste modo sensorial, centrando-se sempre numa figura feminina para explorar uma trajetória de amor, desejo e independência. Os poemas expressos, em muitas cenas, servem de adorno e é recurso essencial ao desenvolvimento do filme - as recitações criam a aura de arte que o filme exala. A fotografia elegante de Greig Fraser consegue impressionar, arrebatamento visual. A delícia do figurino de Janet Patterson estabelece um contato melhor com o contexto sócio-cultural da época, captando as tendências e cores daquele cenário. A minimalista trilha sonora de Mark Bradshaw é discreta, envolve e só se evidencia em momentos mais dramáticos-sentimentais da trama - os acordes não são invasivos, mas correspondem ao psicológico dos amantes. É um poema filmado, incondicionalmente.

Bright Star (Inglaterra, Austrália, França, 2009)
Direção de Jane Campion
Roteiro de Jane Campion
Com Abbie Cornish, Thomas Sangster, Ben Whishaw, Paul Schneider, Samuel Barnett, Kerry Fox, Roger Ashton-Griffiths

34 opinaram | apimente também!:

cleber eldridge disse...

Ainda estou me perguntando, porque deixei alguns filmes da temporada passada passar, porque eu não assisti?

Renato Tavares Mayr disse...

Nossa, seu texto é muito bem escrito, fluído, dá vontade de assistir ao filme. Mesmo não sendo muito fã do gênero. Ótimo blog!

Marilia disse...

Minha grande pergunta é: deixa de ser casto?
=D


Lindo texto.
=D

pseudo-autor disse...

Tô doido pra ver. Adoro filmes com personagens célebres da literatura. Recentemente vi Amor Extremo, que trazia entre os protagonistas o poeta Dylan Thomas (procure! É com a Sienna Miller e a Keira Knightley). Pelo jeito, esse Brilho de uma paixão vai ficar pra DVD.

Renato Orlandi disse...

Olá meu caro. Primeiramente parabéns pelo texto, mais uma vez me deixou com vontade de assistir o filme, preciso visitar locadoras com mais frequencia hehe. Gostei do que li a respeito desse filme, não acho que seja tão casto assim, acho mais bonito, mais sensível, como as coisas deveriam ser, sem toda essa ansiedade do sexo pelo sexo, talvez hoje em dia pensamento cada vez mais incompreendido... Enfim... Abraçooo!

Elton Telles disse...

PRECISO assistir esse filme. Por aqui, ainda passou batido.

Gostei muito do texto, Cris. Muito legal a sua abordagem sobre a poesia em meio ao relacionamento sem maiores "afetividaes" dos personagens centrais. Jane Campion em "O Piano", pelo que me parece com a sua análise aqui, talvez tenha feito o contrário, já que Holly Hunter e Harvey Keitel dão umas que são... wow! Hahaha!


abs!

LuEs disse...

Confesso que eu não havia me interessado por esse filme. Achei que se tratava de um romancezinho, desses que agradam somente às pessoas mais sensibilizadas, que choram à toa.

Pela sua descrição, fui convencido de que se trata de um filme bom. O modo como você escreveu me garantiu isso e definitivamente me motivo a conhecer essa obra - o que farei muito em breve!

Gosto de romances que tenham um argumento forte. Talvez, por ser de Jane Campion, já seja uma amostra a mais de que não é apenas "mais um filme. Vou procurá-lo e conferi-lo.

Cristiano, gostaria de sugerir um filme a que assisti recentemente e do qual gostei muito. Chama-se Quemar las Naves, em português, se eu não me engano, chama-se "Apagar osd Rastros". É um filme mexicano bem interessante, acredito que você vai gostar dele. Se gostar, comente-o aqui.
;D

Franck disse...

Olhei várias vezes esse filme na locadora e não tive vontade de pegá-lo, mas depois dessa sua critica a favor, não deixarei passar essa semana sem vê-lo! Vc capta toda a sensibilidade do filme, em todos os sentiods!
Abçs!

Robson Saldanha disse...

Eu concordo sobre esse amor que é descoberto aos poucos, é interessante essa visão do filme. Mas sinceramente não consegui gostar dele como um todo, e não é bem que eu não goste do gênero, só acho que é muito parado, não me agradou mesmo.

Ao contrário do ótimo O Piano. Enfim...

Mirella Santos disse...

Hmmm! Gostei da parte que envolve poesias, contextos sociais, mas não muito da história romântica do filme. Rsrsrs eu falo como se tivesse visto.

Mas eu ainda não vi, preciso ver pra poder dar uma opinião mais concreta. Bjos

Carlos Henrique Vieira disse...

Olá, Cristiano

Obrigado pelos elogios a meu blog, fico feliz que tenha gostado e que tenha captado um pouco não só do que eu pretendia fazer, mas também de como sou!

Adorei o seu blog, e achei os textos muito interessantes, você lança um nova visão sobre os filmes, li sobre alguns filmes que já tinha assistido e também alguns que agora fiquei louco pra assistir...

Te seguindo também
Abraço

Gusta Fernandes disse...

Adorei a dica do filme.

Não preciso nem falar do texto, sempre, muito bem escrito!

Abraços!

Marcio Nicolau disse...

Retribuindo a visita. Pra dizer que fiquei muito contente com o que li. "Cronista do cotidiano, poeta", não esquecerei de tuas palavras. MUITO OBRIGADO.
E à propósito, devo dizer: o que você escreve aqui também é muito bom. Poesia filmada, em prosa poesia... a poesia insiste, eu vejo.

Caríssimo: tens um novo amigo, pode acreditar.

Vou e volto. Apareça sempre.

SolBarreto disse...

Gostei da indicação pela forma como descreveu parece ser um filme bem interessante...
Uma mulher a frente do seu tempo, questionamentos pessoais, um homem sem posses e aparentemente inseguro diante de uma mulhher deteminada... tudo isso em uma epoca conservadora...gostei rsrs

M. disse...

Cristiano,

Só você mesmo para escrever tão intensamente sobre este sentimento. Não é para todo mundo. Preciso assistir esse filme. Um abração.

O Garoto Perdido. disse...

Cristiano, gostei muito do teu blog! Vou virar leitor assíduo. Valeu por comentar lá no meu blog, volte sempre que puder. Abraços.

Inside Me disse...

será q vale a pena ver? hummm, bom , na dúvida a gente ver e depois sabe se é bommesmo ou ñ né? bjos

João Cláudio Amaral Marques disse...

Obrigado pela visita!Adoro cinema também e curti teu blog.Show! O detalhamento do texto é ótimo, dá vontade de ver correndo o filme.
Eu escrevo, às vezes, sobre os filmes que vejo,porém, com a intensão de expressar os sentimentos bem básicos mesmo, daquele que está na poltrona, no escurinho, absorvido pela "telona" e toda a magia que a envolve...
Até!
Grande abraço!

Canteiro Pessoal disse...

Uma qualidade ímpar o que capturo. De um desdobramento fenomenal.

Amei o espaço.

Priscila Cáliga

Sandro Azevedo disse...

Opa!
Muito bom seu blog! Textos intensos, filmes intensos... gostei!
Sobre esse filme, ainda não assisti, mas fiquei com vontade!
Estou te seguindo também, ok?
Obrigado pela visita e volte sempre!

blog24fps.blogspot.com

Reinaldo Glioche disse...

Nossa Cris! Belo texto. Confesso que eu tava bem interessado em ver esse filme à época de seu lançamento em Cannes no ano passado. Contudo, esse interesse foi se amortecendo. O seu texto e o da madame, quase que simultâneos, colocaram o filme novamente na ordem do dia.
abs

leo disse...

Fico bem feliz de saber que mais alguém,gostou desse filme que foi bastante rejeitado por aí.
O filme pode ser lento,arrastado o que for,mas é um belo e REAL filme de amor.
E Abbie Cornish dá um show,o show é tanto que conseguiu ofuscar a atuação de Ben Whishaw.
Ótimo texto pra um ótimo filme.

Pat disse...

Cris,muito obrigada pela visita e pelas palavras gentis.Você é sempre muito bem vindo.Parabéns pelo seu blog.Você escreve muito bem,além do blog ter um visual sensual,gostoso de apreciar.
Não preciso nem dizer,afinal você tem 1175 seguidores,mais do que provado que seu blog é um sucesso.

Beijos e muito sucesso sempre.

Emmanuela disse...

Venho agradecer por abrir meus olhos para mais uma obra que possivelmente irá me agradar. Admito ser uma fã fervorosa de histórias de amor e quando observo algo a mais, que pode ser absorvido depois de uma reflexão, como foi o caso deste depois de terminar a leitura de seu texto, é sempre mais estimulante. Um beijo !

PS: Obrigada mais uma vez pela ajudinha. =D

Marcos Eduardo disse...

Não vi esse filme, ainda. Mais uma vez "bato cabeça" ao seu texto. Acertivo e muito bem construido de todas as formas. Parabens, Cris!

O sucesso do Apimentário reflete a perfeita maestria na composição dos textos e na escolha dos assuntos postados.

Obrigado por visitar e comentar no Olhar.

Marcelo Pereira disse...

Muito bem filmado e excelsamente interpretado!

Abraço

Anderson Ricardo disse...

Poxa amigão adorei o seu espaço, desculpa eu não poder passar sempre aqui, o meu trabalho me ocupa demais o meu tempo, mas eu prometo que sempre que puder passo aqui pra comentar ok.

Marcio Nicolau disse...

Sentimento é sempre lúdica experimentação.

jeff disse...

Rapaz, muita paixão nesse seu texto. Adoro.
Porém, achei o filme um pé no saco. Não saí da sala, mas já estava impaciente na poltrona. Não senti absolutamente nada, nem tão bonito eu achei. Pareceu-me um romance tradicional de época, que nada de novo tem a mostrar.
Acontece. hehe

[]s!

Mayara Bastos disse...

Me apaixonei pelo seu texto, assim como o filme. Para mim, me lembrou Jane Austen e a relação verdadeira entre o John e a Fanny, uma personagem de boa identificação. E o visual é um deleite.

Beijos! ;)

Wally disse...

Poema filmado? Conte comigo! Outro filme ainda indisponível para mim.

Marconi disse...

A direção de arte e a fotografia são legais, mas no geral eu achei o filme bem chato mesmo. Quase dormi.

Edson Cacimiro disse...

Denso e poético, capaz de nos transmitir amor e sensualidade apenas com olhares e simples toques de mão.

Luis Galvão disse...

Eu também adorei esse filme! Acho toda produção caprichada, elenco afinado e roteiro bem escrito. Belo texto, Cristiano!

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