Adorável Melodrama

Como dar vazão ao sentimento que liberta o ser humano de pleno prazer? Até que ponto é necessário libertar a sensatez da racionalidade e conceber a emoção? O coração não vive só de solidão. Tudo que o Céu Permite representa bem toda a verve sentimental, o nítido romance inebriado de supremo melodrama dos anos 50. O delicado trabalho de Douglas Sirk fez parte de alguns trabalhos do diretor para o estúdio Universal, forma de captar mulheres aptas a se emocionar com contos femininos dosados de senso de drama e romance. O foco narrativo aborda a história de Cary Scott (Jane Wyman), uma típica respeitável viúva da alta classe média que se acomoda com sua vida - condicionada a uma vida superficial, com vizinhos ao redor e filhos universitários que estipulam visitas apenas nos finais-de-semana. O abalo surge quando Cary, inesperadamente, conhece Ron Kirby (Rock Hudson), um jardineiro. Tão logo o conhece, o desejo torna-se avassalador e o amor beira como consequência a este encontro incomum. O que fazer para refrear o que sente? Como entender que neste universo de aparências - nota-se o aspecto do "american way of life" - as tradições, rigores e conservadorismos parecem verbalizar com maior voz? A partir daí, o filme trata de pautar a necessidade de uma mulher que precisa amar e recorrer ao sentimento como ato de transformação - afinal, nenhum ser humano tende a ter progresso de alma e corpo imerso na letargia da solidão. E mais, Cary tem que enfrentar o preconceito de sua comunidade e o repúdio da própria família. Um típico filme de romance inesquecível bem concebido para época, com estilo. A película centraliza o direito da mulher escolher seu parceiro romântico e sexual (recusando-se dos artifícios banais da retórica do auto-sacrifício, tradição e responsabilidade). A mulher tem direito de amar, incondicionalmente, não existe idade para isso. E ataca por mostrar como a hipocrisia social impede relacionamentos de classes distintas.

Interessante a oposição entre Cary e Ron, este duelo é bastante exercido com maestria por Sirk. Enquanto Rock Hudson exibe sua masculinidade em flertes, charme e provocações de olhares - Jane Wyman mescla a feminilidade gentil, a delicadeza e os gestos contidos para representar uma mulher à beira do colapso de amor. Instigante é observar como Douglas Sirk induz a sedução: em todo o filme, Ron veste camisas e casacos cor de vermelho. Ele representa o homem sexualizado, juvenil, disposto a mudar a vida desta mulher que, por acaso, se apaixona. O sentido de desejo é externado o tempo todo em seus trajes, visto que a cor é a símbolo da passionalidade da paixão. Ron é o homem pobre que arde de desejo pela mulher mais velha. E ele é másculo, é passional, é intenso. É o homem que dá vazão à sua libido, sua paixão gradual. Já Cary é bem delineada nas suas roupas claras, neutras, bastante condizentes com seu modo mais introspectivo, sua elegância e certo tom racional - afinal, é uma mulher 15 anos mais velha que ele, repleta de inseguranças e medos e o senso da maturidade fala mais alto. Cary tenta driblar seu desejo pelo jardineiro, com quem passa a ter bastante química sexo-sentimental. Mas, como enfrentar a reprovação de todos? E o que fazer para entender este sentimento que parece ferir a todos da sociedade a sua volta? Ron faz que Cary redescubra seu próprio amor de ser mulher, uma libertação a sua vida de privações. E o senso romântico percorre toda a veia do roteiro fazendo com que o casal viva momentos de paixão, frases de efeito e todo teor meloso preenchendo os sentidos.

Cary ganha vivacidade ao lado de Ron, do seu antigo aspecto assexuado - reformula-se numa nova mulher. Mais sensual, mais altiva. E o filme mostra como ela causa abalos na comunidade: numa cena, quando ela desfila de vestido vermelho e decote, é cobrada por todos, inclusive pelo filho mais velho. Uma mulher viúva não pode manter o aspecto da juventude? Qual conceito da juventude senão o próprio senso de alma juvenil? Cary torna-se uma afronta a sociedade por mostrar que ainda ama, deseja e precisa de um homem ao seu lado. Porém, o olhar reprovador de seus filhos e de todos consegue causar distúrbios na relação dela com Ron, a ponto de tudo viabilizar uma atmosfera de sofrimento, desespero. É necessário ceder a esse preconceito que se instala ao redor? Para recuperar o respeito e carinho dos filhos - deve abrir mão do namoro com Ron? Douglas Sirk foi um diretor a frente do tempo por pautar estes contextos, numa época ainda limitada por temas superficiais no cinema. É triste observar a personagem Cary ser contestada pelos filhos Ned (William Reynolds) e Kay (Gloria Talbott) - enquanto o primeiro representa o machismo conservador que pune, condena e tolhe as opções da mulher; a outra é a própria mulher que, ainda que às vezes incentive a mãe, parece aceitar e submeter-se aos comandos da censura da sociedade predatória que produz fofoca, opina negativamente, adeptos do falso moralismo. Quem há de condenar uma mulher que ainda sente tesão e que respira vivacidade depois dos quarenta anos? O desejo é um aspecto bastante presente em todo o filme. Como condenar isso?

É um excitante filme que verbaliza a crítica às hipocrisias de sempre, àquelas que jamais se modificaram. Bem verdade, após 50 anos, é um trabalho que exerce realismo e nítido ato convincente. O trabalho cuidadoso de Sirk acentua-se nos cenários supercoloridos de um expressivo Technicolor, na elegância de tomadas bem articuladas e no tom isento de afetação proporcionado por um elenco bem dirigido - tanto Hudson quanto Wyman verbalizam ótima sintonia em cena, efetuam bons diálogos interpretativos. Ainda que o estilo folhetinesco se acentue em certas situações, o filme se mantém prazeroso. Há uma bela fotografia bastante expressa em tons azulados e jogos de luz e sombras que captam as expressões dos atores. A trilha sonora de Frank Skinner é bem melódica, melosa e usa de acordes fortes para provocar o invólucro de romance que o filme induz. Amores intensos jamais devem ser esquecidos, afinal o que exerce o ato de proibido pode soar como maior prazer. E filmes que pautam esse empreendimentos de impossibilidade das adversidades sociais perante a uma relação tão intensa e passional, acabam por conceber a reflexão posterior. E o ser humano move-se pelo que sente, ainda que este sentido esteja condicionado à racionalidade ou mesmo pura emoção. Pequena obra de arte, filme que jamais envelhece.

All That Heaven Allows (EUA, 1956)
Direção de Douglas Sirk
Roteiro de Peg Fenwick, baseado na história de Edna L. Lee e Harry Lee
Com Jane Wyman, Rock Hudson, Agnes Moorehead, Gloria Talbott, William Reynolds

21 opinaram | apimente também!:

Renato Orlandi disse...

As características dessa época, o fingimento, as aparências, o drama, o conservadorismo, tudo isso vivo nos dias de hoje, incrível. Gosto de um filme que nos convida a essa reflexão, e também a cruzar a linha da racionalidade, é fácil ficar parado nela... BJu!

Gian Le Fou disse...

Adoro os melodramas da década de 50. Apesar de certas limitações, muitos
conseguem transcender justamente pelo aspecto ousado que aborda (como Clamor do Sexo).
Esse filme provavelmente é um desse casos.

Grande beijo, amigo!

F. Pellicer disse...

Impossível não me perder pelas categorias, listas e mais listas de filme.
Perdi um bom tempo já lendo indicações e textos muito interessantes.

Já está na minha lista de páginas e serem visitas a cada autalização.
Parabéns por todo esse trabalho!

suicidedivebomber disse...

adorei o enredo e procurarei pra vê-lo, então mal está dando para postar, tenho estado numa correria, chegando já provas na facul, trabalhos e meio ao tudo preciso descarregar um pouco do que sinto nesse fim de relacionamento que tô passando mais sempre venho aqui dá uma conferida pode dexar ;)
abração!

david era uma vez... disse...

Eu assisti algo semelhante em minha familia, quando minha tia com 43 anos tornou-se viuva e meu avó quase bateu nela, só por ela mencionar brincando que casaria novamente!!! veja, isso foi nos finais dos anos 80.. acho que a sociedade ainda tem aspectos arcaicos.

Agora vamos combinar, eu tambem ficaria doidinho como Cary, se um Rock Hudson aparecesse no meu pedaço!!


Agora comentando sobre seu comentário lá no meu blog! Garoto, fiquei até sem graça, nunca ninguem me disse coisas tão legais como vc!!!

Beijos meu caro

E ja estou te seguindo e te colando

Wolber Campos disse...

Olá Cristiano! Tudo bem, amigo?

Que bacana, um blog destinado à cultura. Tenho que admitir que sou leigo no que se refere aos clássicos.

Terei que dar uma estudada pelo seu blog. Estou seguindo! ;)

Muito obrigado pelas palavras em meu blog. Fico muito feliz que tenha curtido os textos.

Agradeço, de coração!

Grande abraço!

M. disse...

Pense num filme maravilhoso! E o que mais me cativa é esse seu competente texto. Um abraço e ótima semana.

Bruno Dezinho disse...

Vou anotar essa dica... tô meio em falta com o cinema, e aqui eu encontro títulos bons. Vouy dar uma boa olhada. Parabéns pelo blog.

Kamila disse...

Mas, que texto excelente, como sempre! :) Adorei! Fiquei com vontade de conferir esta obra!!

Emmanuela disse...

Cristiano, eu não acreditei quando vi ! Estou com tudo pronto sobre este filme e farei amanhã a postagem. Que concidência macabra esta que nos envolve rsrsrs !!

Quando a Versátil tratou de lançar este clássico, não perdi tempo. Eu adoro melodramas. Como Sirk não houve igual.

Fábio Henrique Carmo disse...

Eis a coincidência das coincidências!Caramba, essa vai entrar mesmo para a história dos blogs, Cristiano. Resenhas sobre o mesmo filme praticamente no mesmo dia! Hahahhahaha!
Apesar de elementos kitsch, como ressaltei no meu texto, é um ótimo filme,com uma temática que não envelhece. Não conheço muito da obra de Douglas Sirk, mas pretendo ver em breve "Palavras ao Vento". Grande Abraço!

Mirella Santos disse...

A cada momento que vc descreveu do filme parecia que ele estava passando mesmo rs, adoro suas resenhas assim. Sobre o filmeeu ainda não havia ouvido falar, mas clássicos assim são imperdíveis, geralmente a falat de recursos da época faz com que o filme ainda fique melhor

Pedro disse...

Hey, tem um selo pra você no blog.
Passa lá e resgata ele depois, tá?


http://a-melhor-versao.blogspot.com/2010/08/selo-de-qualidade.html


=)

cleber eldridge disse...

OK, eu nunca ouvi falar do filme.

Magno A. disse...

UAU! desculpa, mas no momento só me vem esta interjeição na cabeça.
E digo mais, não pararei por aqui.
Um forte abraço!

Tania regina Contreiras disse...

Gostei mesmo foi do "...afinal, nenhum ser humano tende a ter progresso de alma e corpo imerso na letargia da solidão...." Quanto ao filme, parece interessante sim. Nos dias de hoje esse drama vivido pela personagem praticamente já não existe. As mulheres estão começando a viver intensamente depois dos 40, sem fazer dramas..rs
Beijos

Fernando disse...

Suas críticas parecem ganhar vida com tanta riqueza de detalhes. Mesmo sem assistir o filme, me pareceu ver toda a cena de conflito da mulher. Parabéns! :)

Jú L. disse...

Filme com um dos meus atores prediletos Rock Husdon que narra uma historia polêmica até para os dias de hoje. Uma mulher rica, muito mais velha (com mais de 50 anos) que se apaixona por um homem 20 anos mais jovem,
marroquino e pobre( seu jardineiro) em uma América preconceituosa.
A intolerância e o preconceito racial pairam sobre o filme
Top dos clássicos!!!!!

Elaine Castro. disse...

Olá,
Gostei muito do seu blog como um todo, escreve de forma clara, sem muitos rodeios...
Se interessar-se em conhecer meus textos:
www.elainedecastro.blogspot.com

Abraços.

Renato Tavares Mayr disse...

Nunca ouvi falar, mas deu vontade de assistir. Belo texto, Cris! Abraços!

Wally disse...

Acho Rock Hudson ótimo. Seu texto me deixou incrivelmente curioso pelo filme.

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